…Mas a UCI é que sabe – indefinições e critérios duvidosos

A UCI prepara-se para criar uma espécie de cartão vermelho. Regulam normas de segurança para as organizações, regulam normas de segurança e outras, para ciclistas e equipas.

Falhas sucessivas, ou imediatamente graves, podem dar o tal cartão vermelho, no fundo a desqualificação que já existia. Naturalmente que as questões de segurança são das mais importantes no ciclismo (e na vida), mas, na relação de prioridades, olhando de esguelha (porque não é preciso mais) para as novas ideias desta UCI, salta claramente à vista uma grande confusão naquilo que será a sua interpretação, ou até, avaliação.

Enfim, teremos de ter por exemplo, as forças de autoridade, ou os comissários, a medir a velocidade com que os carros passam pelos ciclistas. Com aparelho electrónico, ou, como em alguns países em que faz jeito, a olho. Bem, aqui, até direi, por mais que pareça um contra senso, que limitar a velocidade de passagem, nalgumas circunstâncias, até pode ser mais perigoso para os ciclistas e uma conduta anti desportiva. Qual a ponderação? Mas a UCI é que sabe!
Olhando ainda mais de esguelha, encandeia a vista, o valor das coimas e a forma como elas poderão ser aplicadas. No fundo, vendo os montantes mínimos, podemos dizer que a Ineos se pode dar ao luxo de libertar uma dúzia de bidons, se fizer jeito, mas se for o Antarte-Feirense, um bidon, ainda que por negligência, arrasa-lhe o orçamento. O mesmo para a ASO, ou para uma qualquer outra organização de provas menores (aquelas que terão cada vez mais dificuldades para organizar provas). Mas a UCI é que sabe! Chama-se democracia do Worldtour.

E, também de esguelha, qual será o limite das posições proibidas na bicicleta? Algumas serão fáceis de avaliar, mas outras nem tanto. Estas, ficam ao critério de cada comissário da UCI, sem possibilidade de defesa de ciclistas e equipas.

O limbo entre um cartão amarelo e um cartão vermelho pode ser ténue. Mas a interferência dessa avaliação, sem possibilidade de defesa, será sem dúvida gravosa. As penalizações de tempo, nomeadamente, podem decidir quem ganha o Tour, e quem perde o Tour.

Qualquer dia já não é a pedalar que se ganha o Tour… Por este andar, chegaremos ao dia em que em vez de recordar os fulminantes ataques dos ciclistas, a organização das equipas, o romantismo do ciclismo heróico, diremos, que um fulano venceu o Tour, porque o outro se debruçou demais na bicicleta (nessa altura já teremos VAR, com a medição de centímetros do fora da bicicleta), e o outro dispensou dois bidons onde não devia. E este será o dia em que em vez dos heróis serem os ciclistas, serão, com certeza, os comissários mais “mauzões” os focos de heroísmo. Mas a UCI é que sabe!
Luís Gonçalves