Os mi nistros de verdade e o telecrã

Em 1984, a selecção nacional de futebol brilhava no campeonato da Europa, na França, Jorge Ortigão, num Toyota Corola GT, era o melhor português no Rali de Portugal-Vinho do Porto, o melhor rali do mundo, Alain Prost vencia no Estoril, numa elogiada organização de grandes prémios de fórmula 1, o Sporting participava na Volta a França, com uma vitória de etapa de Paulo Ferreira, Venceslau Fernandes vencia a Volta a Portugal, enfim, o Benfica era campeão comandado pelo grande Sven Goran Eriksson, batendo o FCPorto do mítico José Maria Pedroto. O país desportivo seria apenas ensombrado pela tragédia de Joaquim Agostinho.

Voltando ao positivo, em 1984, a cereja no topo do bolo desportivo, não pode deixar de ser a medalha de ouro olímpica de Carlos Lopes, na imensa maratona, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. A bandeira, e o hino português, pela primeira vez, no lugar mais alto.
Por falar em 1984 (mera casualidade…), uns anos antes de 1984, um escritor inglês chamado George Orwell, escreve um livro que nos deu várias expressões actuais, sendo a mais conhecida o Grande Irmão (Big Brother), a que dá o título de “1984”.

Na obra, o autor, pretendia retratar um futuro distante, e imaginário, em que seríamos todos meticulosamente controlados pelo Grande Irmão.

Numa das passagens da obra o protagonista, que trabalhava no Ministério da Verdade que, como sabemos, são agora todos os ministérios que conhecemos, estava em casa, a praticar o exercício matinal obrigatório através do “telecrã”, um mecanismo que seria semelhante a uma televisão misturada com câmara de filmar e que, por benevolência, avaliava a vida dos cidadãos. E ai de quem não se esforçasse na actividade física…

Ora bem, por este andar, já começo a achar que aquilo que parecia uma loucura na cabeça de Orwell, será a forma de exercício físico no futuro.

Olhamos para um “telecrã” e imaginamos que estamos num aprazível passeio de bicicleta ou num agradável jogo de bola com os amigos. Olhamos para o “telecrã” e imaginamos que estamos na escola a aprender. Olhamos para o “telecrã” e já sabemos em quem votar. Olhamos para “telecrã”… crescemos e multiplicamo-nos!
Bem, voltando a 2021 e à dura realidade, só podemos dizer que a actividade desportiva anda pelas ruas da amargura. Nos escalões de formação, então, uma miséria. E, ou agimos depressa, ou já nem com o “telecrã” lá vamos.

1984, o ano que dá nome ao livro, embora nem sequer se soubesse bem em que ano estavam, foi, desportivamente para nós um bom ano, como já foi supra exposto. Mas os voluntariosos milagres de 1984, às vezes repetidos noutros anos passados, parecem cada vez mais para trás e menos uma visão de futuro. Não é só o desporto em si. É a saúde pública e a função social que não se coadunam com o “telecrã”. E parece que isso custa a perceber aos ministros da única verdade.
Luís Gonçalves

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