O Estoril, a Volta dos loucos e os circuitos

Ayrton Senna, Alain Prost, Michael Schumacher, Nigel Mansell, Damon Hill, Valentino Rossi, Jorge Lorenzo, Dani Pedrosa, Colin Mcrae, Carlos Sainz, Markku Alen, Juha Kankkunen, Michelle Mouton, Fernando Mendes, Joaquim Andrade, Venceslau Fernandes, Joaquim Agostinho e Jesus Manzaneque. Tudo nomes que demonstram a polivalência do Circuito do Estoril.

Inaugurado em 1972, recebeu as duas últimas etapas da Volta a Portugal em Bicicleta de 1973. Há altura não poderia existir melhor propaganda do que ter Joaquim Agostinho a tentar vencer o seu tetra no asfalto do Estoril. A penúltima etapa, entre Lourinhã e circuito teve como vencedor Manuel Gomes, do FC Porto, mas cabia a Joaquim Agostinho, no dia seguinte defender a camisola amarela, que envergava há vários dias, no CRI final entre o circuito e Lisboa. E defendeu. Porém, o resto, é história. Devido a um controlo positivo (Ritalina) acabaria por ser entregue essa Volta a Jesús Manzaneque, o primeiro espanhol a vencer a Volta.

A Volta de 1973 ficou conhecida com a “Volta dos Loucos”. Assim lhe chamou um jornalista belga presente na caravana. Loucos, não por competirem no Circuito do Estoril, mas por outras razões. Várias. Confusões, discussões, calor, muito calor, contando-se relatos impressionantes da etapa que ligou Beja a Envendos (Mação) e até um infeliz atropelamento mortal de um criança que assistia à passagem da Volta, por um condutor incauto, que seguia em sentido contrário ao do pelotão.

A ligação do ciclismo aos circuitos, mais famosos pelos automóveis, é longa. Há países, como o Brasil, onde essa tradição é antiga. Também pela Europa, com uma utilização evidente dos circuitos italianos, ora para campeonatos do mundo, ora para o Giro, já não falando na impressionante polivalência do circuito alemão de Nurburgring, onde um traçado de 22 km ainda pode ser utilizado.

No fundo, os circuitos fechados, para além das iniciais provas de avenida, também acabam por ser uma das raízes mais precoces do ciclismo. Antes dos velódromos, nos primórdios da modalidade, acabavam por se usar os então populares hipódromos. Lá se diz, “quem não tem cão, caça com gato”.

E como “quem não tem cão, caça com gato”, como isto pelas bandas portuguesas parece um bocado mau para iniciar de vez o ciclismo, tem sido avançada a ideia de aproveitar os circuitos que temos para poder correr de bicicleta.

Não é uma ideia nova, têm existido provas de ciclismo (amador) no Estoril, mas adequa-se perfeitamente às necessidades actuais, mais urgentes, da modalidade, carente de eventos. E, se tomarmos em consideração, por exemplo, o circuito de Portimão, tem todo um complexo de estradas envolvente, numa área isolada, permitindo a realização de uma prova que poderá ser bem interessante. Custos? poderão ser alguns. Mas também devemos pensar nos custos, porventura bem maiores, de não existir competição.

Haja vontade e tudo se faz, porque isto de esperar por Abril, poderá dar que temos de esperar por Maio… E já todos percebemos que temos de sobreviver em permanentes estados de emergência. Aliás, o Estado, já conseguiu esvaziar o conceito de estado de emergência! Outras modalidades, vão sobrevivendo com isso. Não podemos nós ficar de fora, com especial incidência no ciclismo profissional, sem nunca descurar a ignorada formação.

Se somarmos à vida em estado de emergência (que cada vez menos sabemos o que é) a possibilidade futura de algumas organizações de provas terem dificuldades organizativas de vária espécie, estaremos perante um evidente mundo pouco cor de rosa no ciclismo português. Portanto, para além desse factor que pode ser de uma imprevisibilidade rápida e fatal, diremos que, também a nível autárquico, mesmo para dar o exemplo a outras autarquias que agora coloquem alguns obstáculos, é por demais importante iniciar com a maior brevidade possível a modalidade. Às vezes o que custa é começar. É sempre normalmente o que custa mais.

Se a hipótese mais rápida, dado o carácter itinerante da modalidade, é, por enquanto, o circuito fechado, assim seja. Como se vê, pela longa História da modalidade, não é ofensa nenhuma correr em circuitos tradicionalmente ligados a automóveis ou motas. É tudo desporto e não estamos em altura de ser esquisitos. Neste momento, negar a valência que pode ser a utilização de um autódromo, será até uma certa ofensa à modalidade em solo português.
Luís Gonçalves

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *