Há ciclismo ?!

De facto, há ciclismo, mas não é em Portugal. Um pouco pela Europa, e por outros continentes vão-se sucedendo algumas corridas. Um pouco intermitentes, é certo, mas com alguma consistência vão aparecendo nos calendários e na estrada.

Pode-se dizer, contudo, que é um ciclismo de ricos. O que nos tem dado a parecer é que a UCI fica satisfeita com o ciclismo do Worldtour. E o ciclismo não é isso, ou por outra, não é só isso.

Inevitavelmente, as bases do ciclismo estão nos escalões inferiores ao Worltour e também inevitavelmente sem estes não há Worldtour. Seria uma boa reflexão para a UCI.

Mas se lá por fora, sobretudo na França, vamos tendo alguma animação, e existem boas perspectivas para outros países, por cá, está tudo numa linha muito cinzenta. Não direi preto, para transmitir algum optimismo.

Os portugueses sempre foram um povo simpático, às vezes simpático de mais. Por um lado é bom, óptimo! Não fazemos mal a ninguém, nem ninguém se mete connosco. Mas por outro lado, a nossa simpatia e espírito de obediência leva-nos frequentemente ao marasmo. Tem sido assim em tudo.

Se bem repararmos não há discurso de queixa português que não acabe no cómodo, resignado e subserviente “enfim, é o país que temos!”.

E também à conta desta forma de pensar, estamos num marasmo desportivo, sobretudo nos escalões de formação. Os dirigentes das modalidades esperneiam, ou dizem que esperneiam, mas no fim lá vem o “não podemos fazer mais”. Os tempos não são fáceis, é verdade, mas a continuar assim, de pouco fáceis vão-se tornar impossíveis, o que será bem pior.

Ficamos, entretanto, no somar e distribuir de culpas: É o nonagésimo estado de emergência, é o governo, o desgoverno, a falta de oposição construtiva, são as autarquias, são os autarcas à espera de eleições, são os organizadores de provas, são os epidemologistas que têm governado “à tripa forra” o país, são os bastonários de algumas ordens que têm pretensões políticas, são os deputados, são os fura esquemas nas vacinas, é a falta de política desportiva, é a comunicação social pastosa e imprestável, é o rei das selfies, é a extrema direita, a extrema esquerda e o bloco central, tudo serve de justificação para “o país que temos”. Mas, a maior das justificações é o medo de pensar diferente. Pensar, como ler um bom livro, já parece um acto de imprudência.

No meio de tudo, e de tanta justificação na cartilha, acabamos por não fazer nada. Ninguém faz nada. Não é só o ciclismo nacional que está em letargia. Mas é o que nos toca aqui a nós. Há sem dúvida formas diferentes de pensar e formas diferentes de tentar promover o que obrigatoriamente deve ser feito. E não é, só, com o modesto campeonato nacional de ciclocrosse, por mais respeito que tenhamos por esta vertente que lá vamos. Há sempre autarquias disponíveis, há sempre gente disponível.

Porém, por este andar, até os mais resilientes estarão com vontade de atirar a toalha ao chão.

A organização administrativa é diferente, mas não nos podemos dar ao luxo de ver ciclismo no país imediatamente vizinho e, por aqui, nada. Isto numa modalidade que já deu sérias provas de boa capacidade organizativa, porventura até melhores do que as do futebol profissional que, como sabemos, continua em actividade em solo português.

No contexto, não são só as federações (todas no mesmo saco) que devem ser mais pró-activas. A UCI, no que respeita ao ciclismo, também tem uma boa parte de má estratégia. Para este organismo, parece que o importante é receber dinheiro das inscrições das equipas continentais, e proteams, deixá-las à sua sorte e à mercê de tudo, e legislar sobre formas de conduzir a bicicleta… deprimente! Verdadeiramente, deprimente! Neste tempo, é uma inversão de valores incompreensível. Mas vende, porque o que se tem ouvido são as discussões bacocas sobre estas medidas e outras como o aumento de coimas “ambientais”, tão populares entre os comissários e os cofres da UCI, e muito pouco sobre o que resta de necessário calendário competitivo para as equipas continentais, e proteams, muito menos sobre o que esperar da formação. A Androni, excluída do Giro, é um infeliz exemplo do que é o desprezo no ciclismo actualmente.

A imagem que nos fica é que uma parte do ciclismo trabalha pela sustentabilidade, e a outra regulamenta, mal, quando, e onde, menos é preciso.
Luís Gonçalves

One thought on “Há ciclismo ?!”

  1. Bom dia! Concordo com tudo que disse, também já organizei eventos de BTT , ainda não perdi a esperança de vender pão de bicicleta,sou padeiro e a minha esposa diz que eu durmo em cima da bicicleta, ela que não caminha mas é uma grande ciclista…. Conheça a história em”o autocarro do amor”. Boas pedaladas! Aires

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