No limiar da sobrevivência

Pelos preocupantes dados que nos vão chegando, o desporto federado (e o outro também, já lá iremos) está no limiar da sobrevivência. Isto, observando os números do desporto nos escalões de formação, que, inevitavelmente se hão-de reflectir no desporto profissional.

As preocupações são visíveis, mas apenas das entidades directamente ligadas ao desporto. Há modalidades, nomeadamente o futebol, com números de redução avassaladores. Há modalidades olímpicas, e com medalhas olímpicas, reduzidas a algumas centenas de inscritos nos escalões de formação. As reduções de praticantes competitivos são evidentes, nomeadamente no ciclismo.

Mas quanto a nós, mais preocupante do que essa redução, até será o facto de não se poder ensinar, nem mesmo, os que restam.

Invariavelmente isso leva ao desleixe, à impreparação, ou pior, à desistência da prática desportiva. No ciclismo, há este ano (e o ano passado) jovens ciclistas que ainda pouco, ou nada, andaram em grupo. Numa modalidade, tradicionalmente, de pelotão estará, só aqui, tudo resumido em relação ao processo de aprendizagem ou à falta dele.

Este limiar da sobrevivência não se reflecte apenas na redução de praticantes mas também na brutal, e lógica, perda de apoios. São inúmeras as associações desportivas (e outras) que desesperam financeiramente. Pelo caminho, mais do que a via desportiva, vai-se perder uma importante função social, que o Estado nunca conseguirá colmatar. E se no contexto actual lhe associarmos a falta de educação escolar, que pelo menos nos anos mais próximos só tem a mais valia no ensino presencial, o futuro avizinha-se negro.

Aqui, como já tinha prometido, entra o desporto não federado. Ora, num país que, por culpa própria e das instituições, nomeadamente de ensino superior, tem índices miseráveis de prática desportiva, orçamentos estatais cada vez mais curtos, desporto escolar como modelo utópico e sem desporto de rua (aquele que, sem andar assim tanto para trás, nos permitia jogar à bola na estrada!), por contra senso, o desporto federado acaba por ser o oásis da prática desportiva e o que tem permitido, ainda assim, algum nível de prática e sucesso no desporto entre os jovens. Ou seja, para nós, já não são muitos os que se podem dar ao luxo de, por exemplo, em Lisboa, sair para a rua e aprender a andar de bicicleta sem ser em contexto de clube.

O limiar da sobrevivência é este. Dirão alguns que no limiar da sobrevivência estão os profissionais de saúde. Mas não estão. Estão no limiar da capacidade de trabalho e paciência, isso evidentemente que sim. No limiar da sobrevivência começam a estar outros, muitos, cada vez mais. E nesse limiar, por certo que a falta de índice desportivo, de que falamos, até seja um mal menor. Esse limiar de sobrevivência, ainda muito distante, para pior, deste sobre o desporto, é incomparavelmente maior do que o limiar de trabalho. Será tenebroso! Suponho apenas, porque continuo a ser um burguês privilegiado, à semelhança, da esmagadora maioria dos epidemiologistas que têm governado o país.
Destes últimos, não tenho visto nenhum a abdicar do seu limiar de conforto, nem que fosse em ato solidário, ainda que falso. Nem isso. Posso estar enganado, mas não conheço epidemiologistas da moda e da televisão em lay-off! Cada um na sua função é certo, mas a nossa função não se pode cruzar em demasia com a dos outros. Os epidemiologistas, seja lá isso o que for, parecem aqueles tipos que armam confusão nas antigas festas populares, sendo os primeiros a fugir no fim da confusão, quando restam apenas os destroços e ainda alguns dos outros, os que ficam de pé, à “batatada”. Também sei que daqui a uns tempos serão estes mesmos epidemiologistas a falar sobre a pandemia da falta de índices de prática desportiva, associando-a a um novo problema de saúde pública (antigo)!

Voltando a um limiar de sobrevivência mais simpático, no desporto, no ciclismo em particular, a curiosidade é que continuamos a actuar como ricos. A UCI, preocupa-se com o ciclismo dos ricos, o WorldTour, promove inscrições à grande, aumenta as coimas das infracções, deixa roda livre às organizações de provas para extorquirem dinheiro às equipas, ou aos patrocinadores das equipas, tudo com evidente prejuízo dos pobres. Enfim, também ninguém se preocupa com o limiar de sobrevivência da esmagadora maioria das equipas de ciclismo… e do ciclismo.
Luís Gonçalves