Por mais leis que se criem as quedas continuarão e com mais frequência

A UCI repentinamente mostrou-se preocupada com os problemas de segurança nas provas de ciclismo. Criam-se novas leis, criam-se Comités de Segurança, inventam-se novos cargos, diminui-se o número de ciclistas no pelotão, mas por mais medidas que se tomem, os ciclistas continuarão a cair e, mesmo com todas estas regras, as quedas serão sempre em crescendo.

O problema tem-se vindo a agudizar nos últimos dez anos, e tudo isto tem causas que por mais leis que se criem não podem resolver a situação.

Primeira causa: TRANSMISSÕES TELEVISIVAS

As transmissões das provas de ciclismo na televisão aumentaram. Quase todas as provas têm transmissão em direto, obrigando a uma continuidade do espetáculo, de forma a agradar audiências. As equipas pretendem mostrar as suas camisolas na frente da corrida e a velocidade aumenta exponencialmente, nos pontos decisivos de uma corrida, numa luta desenfreada pela melhor posição.

Segunda causa : PREPARAÇÃO DOS SPRINTS

As equipas tentam as fugas, e nos momentos mais difíceis atacam vertiginosamente, tentando cada uma delas, colocar na frente da corrida todos os seus ciclistas. As equipas com sprinters começam cedo a controlar o pelotão e as escapadas. Onde cabem apenas dez ciclistas, tenta-se que caibam vinte, a preparação para o sprint começa, muitas vezes a vinte kms da meta. Mau grado o conhecimento do percurso, através dos meios hoje em dia ao seu dispor, os ciclistas arriscam. A luta pela posição é desenfreada. Os cotovelos entram em ação. A abordagem às rotundas é feita em velocidade incontrolável, de forma a não perder o lugar na frente que tanto demorou a conquistar e as quedas acontecem.

Terceira causa: PRESSÃO DAS EQUIPAS

A pressão pelos triunfos é enorme e por dois motivos, que ao fim e ao cabo são os mesmos. Pressões por parte das equipas para obterem o melhor resultado. Os triunfos são cada vez mais dificeis de obter. Uma equipa, qualquer uma delas perde sempre mais do que ganha, daí que qualquer triunfo é sempre bem vindo. Por seu turno, o investimento dos patrocinadores cada vez é maior, daí a necessidade de justificar o investimento, que só é obtido mediante os triunfos.

Quarta causa : OS CICLISTAS

Do outro lado da barricada, os ciclistas. Obter um lugar numa equipa World Tour é como chegar ao paraíso, quer em termos de vencimentos quer em termos de outras regalias ( prémios, melhores condições de trabalho, melhores equipamentos, etc). Perder estas regalias é cada vez mais recorrente. Cada vez há mais jovens a aparecer precocemente, e as equipas não absorvem todos os ciclistas. Muitos sabem que podem ficar desempregados no final da temporada, cada vez isso acontece com mais frequência, e assumem a plenitude dos riscos. Cometem erros, arriscam em demasia .

Haverá outras causas colaterais. Como a falta de atenção, que não se sabe qual a causa que estará por trás. Punha-se em causa a utilização do Tramadol, que já é proibido e as quedas continuam. Põe-se em causa os travões de disco, com uma maior rapidez de travagem e consequente falta de reflexos rápidos dos ciclistas que seguem atrás, mas as causas principais das quedas continuarão e, se as coisas continuarem com um nível de exigência cada vez mais apertada das equipas a sucederem-se com mais frequência. Não são as posições na bicicleta que vão alterar a situação, porque por aquilo que nos lembremos nenhuma queda se ficou a dever a esse motivo.

Medida bem tomada, sim foi o atirar dos bidons de qualquer forma por parte dos ciclistas. Mas isto vai sempre acontecer, quanto mais não seja quando muitas vezes os ciclistas deixam cair os bidons cheios, por má receção, na zona do abastecimento e estes cheios rolam para o meio da estrada. Um bidon vazio dificilmente é causador de uma queda.

As leis quando são implementadas têm de ter a opinião de pessoas experimentadas. Apontemos um exemplo : a UCI na sua luta contra os dejetos deitados fora pelos ciclistas implementou as chamadas zonas verdes, para aí serem deitados fora todo os invólucros das abastecimentos. Normalmente são pratas, pequenos papéis leves que levantam com o vento. Depois dos ciclistas passam os carros das equipas em alta velocidade, que espalham os papéis para os campos e zonas adjacentes, que tornam impossível a sua recolha. Quem os vai recolher ?