Um texto no singular : o ciclismo é bonito

A ausência do ambiente muito próprio das corridas de ciclismo, confesso que me está a stressar, mais muito mais que o maldito Covid. Preso, ou neste neologismo próprio dos tempos modernos, confinado, o tempo passa indiferente, precisamente numa altura em que mais preciso dele.

Sinto a falta do movimento, dos arrufos próprios dos ciclistas, das minhas crises de mau humor passageiro, da ansiedade de partir do hotel, para chegar cedo à partida, da adrenalina da condução com estrada aberta, mas sinto sobretudo, a falta da paisagem que muda todos os dias, dos amigos espalhados um pouco por todo o lado, com quem convivemos um vez por ano.

Sinto a falta de movimento que só uma modalidade como o ciclismo nos proporciona e da afetividade com que nos relacionamos, com quem não conhecemos.

Sinto saudade das estradas tortuosas do nosso país. Da verdura do Minho, da aridez pálida do Alentejo, do mar quente algarvio, das oliveiras e das vinhas do Douro, das cascatas de Monsanto, e mesmo da indiferença dos urbanistas de Lisboa.

O ciclismo mudou, é certo, já não é o que era, pelo menos nesta componente essencial que sempre o caraterizou – uma simbiose entre o público e os intervenientes, entre a festa popular que foi a sua essência, e a era essencialmente comercial dos dias de hoje, mais fria, mais distante, com barreiras, muitas barreiras. Mesmo assim, sinto saudade é que, depois de dado o tiro de partida tudo é igual.

A paisagem passa-nos quase indiferente e a luta titânica absorve-nos. Sucedem-se as quedas, os furos, as avarias, os ataques, as fugas, as perseguições. Depois vem o abastecimento, os bidons de água fresca, as discussões com os comissários, as idas às fugas, com o carro sempre ao lado dos ciclistas, calcando a berma da estrada e roçando as frágeis bicicletas. No ciclismo pouco se para , mesmo no final, quando se corta a meta, a pressa é grande para arrancar que há mais, muito mais para fazer.

Estimo, feitas as contas por alto, que este movimento ao fim de 36 anos de ciclismo me proporcionaram, mais de três mil dias e mais de um milhão de quilómetros de sensações únicas. O ciclismo, pese a singeleza da frase, é bonito.

José Santos

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