As incontornáveis emoções do desporto

Entre o ciclismo profissional as rodas já dão as suas voltas. São ainda ténues, mas podemos já começar a sentir algumas emoções competitivas. Para sentir emoções mais sérias parece que temos de esperar por Março, quando a UCI, com alguma segurança, puder definir os calendários internacionais.

Provas pendentes, provas anuladas e provas adiadas dão ainda um grau de incerteza elevado. Mas a esta distância tudo indica que a época, apesar de começar aos soluços e com sobressaltos, se possa instalar com alguma credibilidade a partir de Abril. Isto, lá por fora, com reflexo directo nas nossas provas inscritas no calendário internacional. Porque, por cá, vamos tendo calendário nacional, mas envolto em nevoeiro. Pode ser, e assim se espera, que o padrão seja o mesmo. Claro, falamos sempre do ciclismo profissional. Na formação, ainda é tudo uma amorfa miragem. Não está portanto fácil regressarem todas as emoções do ciclismo.

Por falar em emoções no ciclismo, meio caminho andado temos para a emoção no desporto. As emoções desportivas só são verdadeiramente perceptíveis por quem compreende o que é o fenómeno desportivo. Os verdadeiros adeptos compreendem. Mas ninguém melhor do que os próprios intervenientes as compreende. O momento do sucesso, ou da desilusão, tem por trás muitos factores invisíveis à esmagadora maioria da sociedade. Invisíveis, e não raras vezes inimagináveis.

Vem isto a propósito do sucesso de Abel Ferreira, no Palmeiras. Vimos bem o que lhe custou o sucesso. Ele, com evidência, explicou uma parte. E nos momentos de clímax, do sucesso, ou da desilusão, tudo isso, e muito mais, nos vem à cabeça. O sucesso não é um mero festejo, nem a desilusão é um mero afogar de mágoas. São circunstâncias de muitos factores e de muito tempo. Tempo invisível e inimaginável, que pode ser libertado em segundos. Até às pessoas mais ponderadas, como eu tento ser, por vezes, salta-lhes a tampa.

No contexto de tudo, são óbvios os festejos do sucesso e os abraços e afagos da desilusão, como é óbvio o consolar de um atleta que perde um objectivo, como é óbvio estender a mão, e amparar, um ciclista que cai. É aliás um momento negro das corridas ouvir pela rádio volta “queda, queda!”. Atos compreendidos apenas por quem os vive.

Nos últimos tempos, o jornalismo, está cada vez pior. A campanha presidencial, ou por um extremo, ou por outro, foi um desastre informativo. O jornalista, sobretudo o que tem alguma pretensão (ou está condicionado…), é cada vez mais um opinador e influenciador, e cada vez menos um informador, este, deixando a liberdade de pensamento a quem lê ou ouve a notícia, aquela liberdade que os jornalismo tanto apregoa.

Os festejos do Palmeiras e de Abel Ferreira deviam ter sido de outra forma? Talvez. Mas isso deve ser deixado ao critério do espectador, certamente, entre outros factores, cada qual influenciado pela sua experiência desportiva, ou pela falta dela. E, no meio de mais um feito português (e tanto precisamos deles, sobretudo agora!), ainda assim, num canal de grande dimensão nacional, ouviu-se dizer, no fundo, que a vitória de Abel Ferreira tinha sido uma derrota para a pandemia. Naquilo que deveria ter sido uma boa notícia, quase que não mostravam o golo! E qualquer pessoa que diga que o golo e a consequente vitória eram de facto o mais importante da notícia, e não subscreva por completo a agenda e os panfletos mediáticos pendentes, é um radical negacionista. E ainda que assim não seja, faça-se a vossa vontade.
Luís Gonçalves