O primeiro internacional

Vagueando pelo ciclismo, que é o que vamos fazendo por agora, peguei nas mais internacionais corridas portuguesas (Volta, Alentejo, Algarve e Torres Vedras) e, porque há sempre uma primeira vez para tudo, olhei para as listas de vencedores e tentei saber quando de facto estas provas se tornaram verdadeiramente internacionais.

Sabe-se que os ciclistas estrangeiros e as equipas estrangeiras já andavam por cá há algum tempo, mas, definitivamente os registos que nos saltam à vista e que nos fazem pensar nessa internacionalização, bem ou mal, consubstanciam-se ao olhar para a lista de vencedores e ver quem foi o primeiro estrangeiro a vencer. É inevitavelmente aí que fica imortalizada a internacionalização.

Como seria de esperar o primeiro vencedor estrangeiro teve sucesso na Volta a Portugal. Em 1967, o pelotão português apresentava-se recheado de estrelas dispostas a lutar pela vitória. João Roque no Sporting, Fernando Mendes no Benfica, Mário Silva no FCPorto, Joaquim Andrade no Sangalhos e Jorge Corvo no Ginásio de Tavira, dividiam as maiores atenções. Mas, à boa maneira portuguesa, os esforços tardios de união entre as principais vedetas portuguesas, acabaram por não ser suficientes para impedir a vitória do belga Houbrechts, da Flandria.

Como seria de esperar, alguma desilusão (aperceberam-se da internacionalização!) apoderou-se do público português que dividia preferências pelos seus ídolos, sem que visse nenhum deles, ou nenhum português, a continuar a tradição das vitórias portuguesas na Volta. Curiosamente, vitórias ainda hoje ansiadas.

Pelo Alentejo, talvez o momento internacional mais alto tenha sido o da vitória de Miguel Indurain em 1996. Porém, o primeiro vencedor foi outro. Também espanhol. José Récio, impôs-se em 1990. Embora o ciclismo francês sempre fosse pujante, umas vezes mais, outras menos, a Volta ao Alentejo é destas provas a única que tem um vencedor francês (Maxime Bouet). E, talvez se possa dizer que é a mais internacional de todas, já que, o número de vitórias total pende com clareza para os ciclistas estrangeiros, divididos por nove nacionalidades diferentes. Aliás até à passagem das duas últimas edições, os espanhóis dominavam no Alentejo.

Claro que esta visão estatística favorece a Volta ao Alentejo. Porque, se tomarmos em conta o número de vencedores de nacionalidade estrangeira diferente (13) e a dispersão de continentes (Europa, América do Norte e do Sul e Oceânia) teríamos de considerar que a mais internacional das Voltas está no Algarve. Aqui, pelos forasteiros, foi o brasileiro mais português do ciclismo, a vencer. Cássio Freitas inscreveu em 1993 as cores da bandeira brasileira na lista de vencedores. Ilustre lista como sabemos, que soma, quase uma dezena de vencedores de grandes Voltas. Por outro lado, não deixa de ser a única que ainda tem um português, isolado, como recordista de vitórias (Belmiro Silva), algo que não acontece em nenhum dos outros exemplos.

De Torres Vedras, na homenagem de sempre ao mais internacional do portugueses, Joaquim Agostinho, vem o estrangeiro mais “esquisito” a inaugurar a lista. O alemão Hardy Groger impôs-se no já longínquo ano de 1983, ao serviço de uma equipa alemã, que vou dizer apenas que era de Frankfurt, para facilitar. Oriundo da extinta Republica Democrática Alemã, acabou por inaugurar uma tendência que Torres Vedras teve durante uns anos com a participação de alguns ciclistas daquele quadrante geográfico, com sucesso, nomeadamente, da ex- URSS. Hardy Groger acabou por correr também numa equipa portuguesa (Avibom/Lousa).

Esta visão da primeira internacionalização até pode ser considerada limitada. Porém, tomando o exemplo da Volta ao Algarve, apesar da quase mítica sucessão de vencedores nos últimos anos, para sempre, quando nos perguntarem quem foi o primeiro estrangeiro a vencer a Algarvia, teremos de responder, Cássio Freitas, no Recer/Boavista. Pese embora o facto de ter cumprido a vitória numa equipa portuguesa, será para sempre esse o primeiro sinal visível de internacionalização, acessível, fácil de recordar e inegável.

Luís Gonçalves