Janela aberta…porta fechada

Agora que conhecemos as medidas do novo confinamento e do renovado estado de emergência, que começa a parecer perpétuo, já conseguimos olhar melhor para o que pode esperar o futuro imediato da modalidade no que às competições diz respeito, sobretudo, em relação à Volta ao Algarve, a mais próxima das nossas competições. Apesar disso, tudo o que se diga, não deixará de ser considerado como mera previsão, ou, o que se deve de facto esperar de um futuro bem próximo.


Olhando para as regras, pelo menos por enquanto, deixam a janela bem aberta ao desporto profissional. Ou seja, existindo vontade e cumprindo-se as regras sanitárias, não se vê grande obstáculo à realização de eventos competitivos, nem se criam entraves sérios à realização do treino.

Em consideração à Volta ao Algarve, que previsivelmente baterá no fim de um primeiro mês de confinamento, dependerá muito do que considere a entidade organizadora, que por certo terá toda a vontade na sua realização, mas sobretudo do que pensem os seus parceiros, designadamente as autarquias.

É sabido que pelo Alentejo, o adiamento da Alentejana, se deverá à falta de comparência inicial da comunidade intermunicipal habitualmente parceira do organizador. Também não deverá essa falta de comparência actual, servir para justificar todo o adiamento, ou pior, a cómoda não realização da prova, em claro prejuízo de uma das mais icónicas provas nacionais. E já acumularemos os outros prejuízos.

Pelo Algarve, aparentemente, a vontade ou necessidade poderá ser diferente. A região precisa de promoção, boa promoção e injecção de capital turístico, como de pão para a boca. E, neste contexto internacional, o adiar da Volta ao Algarve, pelo menos para muito mais tarde no calendário, tirará todo esse foco internacional, em menor limite, a sua esmagadora maioria. A Volta ao Algarve e a região de turismo têm vivido em simbiose com as grandes equipas e as grandes figuras do ciclismo que, ano após ano, por cá passam. Muito mais tarde no calendário, poucos ou nenhuns por cá estariam. E isso acabava por esvaziar o interesse dos parceiros do organizador.

Certo, dependeria sempre muito de outros calendários que também andam de pantanas, mas, em previsão, o que esperaria o organizador que deixaria de beneficiar da data da prova, era esse esvaziar de interesse. Podíamos ter outra Volta ao Algarve, mas bem mais virada para dentro.

Mas chegados aqui, e como temos falado de prejuízos, na hipótese da mudança da Volta ao Algarve (que não saberíamos se continuaria no escalão UCI actual) como ficariam as equipas nacionais que investiram monetariamente e de propósito, na participação na Volta ao Algarve no escalão Proseries (sob o falso pretexto, da UCI, da luta contra o doping!) se ela não fosse desse escalão? Ou, mesmo sendo, que outro impacto teria esse investimento obrigatório? Pior, que impacto teria a não realização da Volta a Algarve?

O que se sabe é que as equipas estão a fazer um esforço significativo para colocarem os ciclistas na estrada e correm o sério risco de não ver esse esforço, mais uma vez, recompensado, pela volatilidade e incerteza constante do calendário competitivo. Não se quer com isto dizer que a tarefa federativa se adivinha fácil. Bem pelo contrário. Porém, convém já realçar estes pequenos grandes pormenores e esperar que mais para a frente todos os procedimentos sejam mais simples.

Mas se no ciclismo profissional, apesar de tudo, acabou por se abrir uma janela, na formação, as portas continuam fechadas. E o esforço financeiro e logístico das equipas/clubes de formação, na devida proporção, não é menor do que o das equipas profissionais. O problema é transversal ao desporto e, no fundo, acabará por ser um problema social, grave. Social e também sanitário.

Já o disse e repetirei as vezes que a necessidade continua a impor. É tempo das federações, juntas, e em conjunto com outras estruturas orgânicas desportivas do país, intervirem de forma séria na questão. De outra forma, daqui a uns tempos quase não valerá a pena existirem federações desportivas, porque terão um número residual de clubes e atletas na formação.

Já sabemos que agora não se pode ser contra nada. Temos de ser todos pró-vacinação, pró-confinamento, pró-estado de emergência perpétuo, mas às vezes, algumas coisas no momento certo e na dose certa (duas coisas difíceis de acertar, por isso é que é mais fácil proibir) têm de ser mandadas pró (…).

O que se tem visto é uma futura geração, aquela de que dependerá o país durante mais tempo, demasiadamente perdida. Não só na vida desportiva. Não é por acaso, ou por outra, também é esse um dos factores ainda que não seja o principal, que desta feita as aulas continuam em regime presencial, como também deveriam estar os ATL e centros de estudo. Enfim, cópias cegas do decreto anterior, em que as escolas estavam também fechadas!

Se não conseguirmos abrir a porta toda na formação desportiva, pelo menos que se deixe, com regras, a porta entreaberta. Porque completamente fechada, já todos sabemos que trará consequências nefastas, a vários níveis, num futuro bem próximo. Dito isto, para ser pela lei e pelo rigor. De outra forma só se safarão os fura esquemas ou as rebeliões civis. A (quase) anarquia. E não é isto que se espera de qualquer governo de bem.
Luís Gonçalves