Uma visão da A Volta ao Algarve e a Volta a Portugal para os portugueses

O ciclismo nacional não se resume à Volta ao Algarve – pormenor que para muita boa gente o parece ser- cuja prova é mais destinada à preparação das equipas estrangeiras que nos visitam, precisamente numa altura da temporada em que as provas escasseiam e em algumas delas se realizam em regiões climatéricas adversas, do que às equipas portuguesas, que alinham numa prova com os melhores ciclistas do mundo, em clara situação de desvantagem.

Muitas vezes compara-se a fraca prestação dos ciclistas portugueses na prova algarvia, mas esta situação tem algumas justificações. Primeiro porque a competição é desequilibrada, com equipas de milhões a correrem com equipas de tostões, quase como se fosse possível fazer o mesmo juízo de valor, por exemplo, com a equipa de futebol do Louletano a competir de igual para igual com a equipa do Barcelona , num qualquer campeonato. Não há hipóteses do Louletano, sem menosprezo para os algarvios, competir de igual para igual com a equipa de Messi, o que toda a Imprensa concordaria e o senso comum assim o determina.

Segundo porque as equipas e ciclistas portugueses chegam ao Algarve sem nenhuma competição antes, pormenor que nenhum responsável pela modalidade se importa, melhor dizendo se preocupa.

Terceiro porque, depois da realização do Algarve o calendário que se segue é limitado para as equipas portuguesas e nas semanas seguintes poucas provas se realizam, e extraordinariamente importante para as equipas estrangeiras, com a chegada das clássicas.

Mas voltando ainda ao elevado grau competitivo da algarvia, atente-se ao pelotão deste ano: de fora do lote dos dez primeiros da geral individual irão ficar obrigatoriamente quatro das 14 equipas World Tour presentes, isto se tivermos em linha de conta que cada uma terá um ciclista no top ten , o que é praticamente inviável. Ou seja , de fora dos dez primeiros, irão ficar entre oito a seis formações de 1ª divisão.

Transportemos, o caso para a Volta a Portugal, em que o nível competitivo é semelhante ao nível nacional: equipas Continentais profissionais e continentais UCI. Portanto mais equilibrado.

Em que os ciclistas nacionais chegam à prova depois de um número de dias de competição razoável.

Em que a maioria dos ciclistas nacionais chegam depois de estágios de altitude, em vésperas de realização da Volta, e em que a aposta do seus futuros contratos se resumem aos resultados alcançados na Volta a Portugal, o que é fator importante de uma grande motivação.

Em que o ritmo competitivo da Volta, apesar de poder ser considerado bom, é naturalmente inferior ao do Algarve.

E para terminar este rosário, é de realçar a nítida má forma com que os ciclistas estrangeiros que nos visitam se apresentam em Portugal, demonstrando uma imagem péssima do seu profissionalismo, ciclistas e staff ,que chegam, na sua maioria, nitidamente à Volta em jeito de turismo, queixando-se depois que os ciclistas nacionais correm muito.

Estas são duas comparações que se ajustam perfeitamente, e que até podem ser adaptadas para outras realidades : Tour Down Under com o total domínio dos ciclistas australianos ; Volta a Colômbia com o total domínio dos ciclistas locais. Dois exemplos que não deixam dúvidas.

Mas para aqueles que criticam o fraco comportamento dos ciclistas nacionais na Volta ao Algarve, atentemos nas prestações das equipas Continentais profissionais que correm com Wilds Card no Giro , Tour e Vuelta: quantos etapas ganham, e quantos ciclistas se classificam nos 50 primeiros da geral individual ? E são Continentais profissionais.

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