Assalto ao ciclismo português ?

Há pouco tempo noticiavam-nos a entrada de Jorge Mendes, o mais proeminente empresário de futebol do mundo, no campo do ciclismo. Em primeira impressão, naquele primeiro impacto da novidade, talvez tenhamos ficado agradados. Mas depois, dormindo sobre o assunto, podemos ficar com dúvidas.

Naturalmente que o objetivo principal do Jorge Mendes é ganhar dinheiro, algo que, ao que consta, tem feito bem. Mas há várias formas de ganhar dinheiro sendo que, sumariamente e com simplicidade, as duas principais serão o investimento ou a destruição da concorrência. Qualquer um que jogue minimamente Monopólio, saberá isso.

Numa visão macro, num negócio que cresce, uma e outra são viáveis, ora pelo catapultar ainda mais do crescimento, ora pelo minar, para destruir, da concorrência. Como bem reparou o nosso camarada Paulo Vaz no decurso desta semana, em artigo aqui publicado, há uma fórmula clássica para minar a concorrência. Apesar disso, esperemos todos o melhor, até porque o investimento surge em forma de parceria com alguém ligado à modalidade.

Mas também aqui, neste ponto, numa visão micro, teremos de estar atentos. Queremos todos engrandecer a modalidade, o ciclismo português em particular, e melhorar as condições contratuais dos ciclistas. Mas, para isso, também convém que não se faça um assalto ao ciclismo português. Porque normalmente as ondas de assaltos dão extraordinárias condições para uns, poucos, e miseráveis condições para outros, muitos.

Há cada vez mais produtos apetecíveis de assalto que são tomados desde o início de produção. Produtos vendáveis ou, em tantos casos, bem vendidos, por quem não devia participar nesse processo publicitário. Produtos bandeira.

Mas para existir um produto bandeira, apetecivel ao assalto, são deixadas muitas outras bandeiras para trás. Às vezes, fica-nos a sensação de que quem fica para trás só atrapalha. Porém, tantas vezes quem, aparentemente, fica para trás é o principal suporte do ciclismo português.

Dito de outra forma, o esforço das equipas portuguesas, da formação aos profissionais, e dos ciclistas que pelas mais variadas razões por cá ficam, os dois principais focos de sustentabilidade de produção e promoção no ciclismo português, não devem ser esquecidos em todo este novo processo que se prevê, e que se espera de crescimento. Qualquer ciclista português que vá para fora do país e aos quais se desejam os maiores sucessos, teve o seu processo de aprendizagem mais valorativa e difícil de realizar, por cá, no seio das equipas nacionais. Quem manda não deve ajudar a descapitalizar esse esforço.

Existindo assalto ao ciclismo português, que seja na onda de um Robin dos Bosques. Ou, pelo menos, que não deixe os pobres trabalhadores da periferia, cada vez mais trabalhadores, e pobres.
Luís Gonçalves

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