A âncora do costume

Dois mil e vinte começou como um ano interessante, o vinte, vinte! Depressa se tornou num dos anos mais esquisitos da história recente da humanidade ao qual, num futuro próximo, ainda aguardamos repercussões desconhecidas, sobretudo a nível económico e social.

Mas, apesar de ser um ano completamente atípico, acabámos por ter, ainda, alguns bons temas de conversa. E dessas conversas, surge-nos o que terá sido de facto importante para nós, num ano em que, sem dúvida, demos mais relevo aos pequenos (grandes) pormenores.
Podíamos explanar aqui sobre a vasta vida internacional, onde, pessoalmente, talvez destacasse a vitória de Pogacar no Tour, não pela vitória em si, merecida, mas pelo que nos fazem pensar estas vitórias precoces, ou seja, sobre a capacidade desta malta pedalar, ao mais alto nível, até ao tempo de Contador, Nibali, Froome, ou Valverde, buscando apenas exemplos mais recentes e mais mediáticos. As variantes são tão físicas como psicológicas e sociais. Veremos.

Mas, ainda neste contexto, já conseguimos ver que nos sprinters, os últimos anos nos têm dado uma catadupa explosiva de nomes jovens. E, vamo-nos esquecendo deles, como nunca nos esqueceremos de Cipollini, Mcwen, Zabel, Petachi, Griepel ou Cavendish. Por falar em sprinters talvez estivesse aqui o segundo destaque internacional. A queda de Jakobsen. Mas sobre essa, por várias visões, também já expus algumas ideias.

Quanto a nós, portugueses, o que nos interessa? Obviamente, que o Giro deste ano 2020. Naturalmente, que os resultados que vão aparecendo com uma forma mais consistente na pista. Em ambos os casos, apesar das dificuldades crescentes, só podemos constatar o bom trabalho que se vai fazendo pelas equipas de formação em Portugal. Trabalho, complementado, pelas oportunidades que a estrutura federativa vai dando nas seleções. Sim, percebo a expressão e a intenção, muito anglo-saxónica, mas sempre me pareceu um exagero a Equipa Portugal. Fico-me pelas seleções.

Porém, neste 2020 tão estranho, o que foi de facto verdadeiramente importante para o nosso ciclismo? Quanto a mim, e inevitavelmente apesar de parecer redutor, termos tido Volta a Portugal. A sustentabilidade do nosso ciclismo dependia disso.

É bom termos a Volta ao Algarve como prova de bandeira internacional onde podemos ver, em Portugal, alguns dos melhores corredores do mundo mas, repare-se, que no decurso do ano, apesar de termos tido a algarvia com uma lista recheada, o maior perigo de sustentabilidade sempre foi não existir Volta a Portugal. Numa expressão da moda, continua a ser esta a nossa âncora que nos vai permitindo aguentar o barco com alguma segurança.

Pode não ser a âncora ideal. Isso dependerá muito da perspetiva de cada um para o que entende ser o ciclismo nacional, ou para o que sonha ser o ciclismo nacional, mas é verdadeiramente a prova que entra pela cultura popular do país, com impacto social, e comercial, inigualável no nosso panorama.

Portanto, com mais ou menos etapas, chamando-se sempre Volta a Portugal, pelo tal impacto e por uma transmissão televisiva vendável, especial ou não, com um organizador próprio ou com a Federação, e bem, a tomar as rédeas, mais tarde ou mais cedo no calendário, o essencial para a nossa sustentabilidade era que ela existisse. E tivemos Volta a Portugal.

Enfim podíamos questionar agora a nossa dependência excessiva da Volta, no fundo, aquela que já conhecíamos e apenas se tornou mais evidente. Mas certo é que 2021 vai tornar a precisar da Volta, de preferência, nos moldes anteriores a 2020. Uns dirão que é curto, outros dirão que já é demais, outros dirão que é o que temos.
Talvez seja tempo, daqui a uns tempos com a calma do tempo, para, bem enquadrados na realidade do nosso país cada vez mais na periferia da Europa, pensar no futuro e no que queremos, ou no que nos faz verdadeiramente falta para a Volta a Portugal e o que as massas populares que a consomem e a divulgam esperam dela. Porém, por enquanto, convirá não estragar o que temos.

Bem, quem ler isto a partir do pensamento de outras vertentes dentro da modalidade, que não a estrada, lá pensará, e nós? Pois, mas, com mais ou menos glamour, o que tem segurado o ciclismo nacional, não só equipas, mas também orçamentos federativos, é a Volta a Portugal em Bicicleta.
Luís Gonçalves