Os milhões do World Tour

Definitivamente as coisas não correram bem em 2020 em termos desportivos para a Ineos. E não estão a correr bem em termos de imagem de marca neste fim de ano. Na Bélgica um grupo de ambientalistas danificaram seis veículos da equipa de ciclismo Ineos Grenadiers em Deinze na Flandres Oriental. O incidente foi motivado por protestos, pela multinacional inglesa liderada pelo magnata britânico Jim Ratcliffe, estar a construir em Antuérpia uma nova fábrica de produtos químicos para reciclar plásticos leves e os transformar em plásticos de longa duração. Como se sabe Antuérpia tem dois dos maiores portos do mundo instalados na mesma cidade, e convenhamos que uma fábrica de produtos químicos junto ao mar não é algo que qualquer cidadão queira ter por perto. Além do mais a Ineos não se livra dos comentários menos abonatórios de que os 50 milhões de euros que tem para gastar este ano só para a equipa Ineos Grenadiers seja apenas e só, uma máquina para lavar dinheiros de impostos que teria que pagar. E talvez esta manifestação danosa às viaturas da equipa, sejam uma consequência de uma outra manifestação que ocorreu há dias contra a extração de gás de xisto um novo negócio do universo Ineos e o usar em Inglaterra, feita por ambientalistas ingleses. Todos estes atos não são benéficos para a imagem da Ineos internacionalmente para a sua equipa de ciclismo do mais alto nível internacional.

Para tentar salvar a imagem do patrocinador, Sir Dave Brailsford deve ter sonhado muitas vezes nos últimos meses com uma frente de pelotão toda dominada pela sua equipa, à imagem do passado, enquanto a equipa se chamava Sky e dominava o pelotão nas maiores provas a nível mundial com os resultados que todos sabemos. Este ano a mancha na frente do pelotão era amarela, comandada quase sempre por um belga que começa a fazer história: Wout van Aert. E dos sonhos parece ter passado aos atos, contatando Jef Van den Bosch o empresário do ciclista belga, acenando com 6 milhões de euros por ano para o seu agenciado. O empresário não comenta nada sobre esta possível contratação milionária que envolve ainda a Jumbo/Visma com que van Aert ainda tem contrato até ao fim de 2021. Mas a imprensa belga contraria que não vai possível fazer esse negócio, porque a Jumbo é uma cadeia de supermercados a faturar milhões e que não está a sofrer financeiramente com a pandemia e por isso não precisa dos milhões da indemnização que essa quebra de contrato acarreta, talvez uns 3 milhões para os belgas. E, mais a mais, porque o belga foi considerado o desportista do ano na Bélgica e isso é altamente benéfico para os patrocinadores da equipa. Mas há sempre quem pense que isto se trata apenas de uma manobra do empresário, para a Jumbo lhe aumentar o ordenado.

Se o negócio for feito, e se os 6 milhões falarem mais alto, Wout van Aert passará a liderar a lista dos ciclistas mais bem pagos do mundo em 2020. Superará os 5 milhões que Peter Sagan aufere na alemã Bora-hansgrohe, dos 4,5 milhões que cobrava Chris Froome na Ineos e com certeza irá no mínimo descer para metade na Israel Star-UP Nation, os 3,5 milhões de Geraint Thomas na Ineos e os 2,75 de Bernal na mesma equipa. E dos 2,66 milhões que Fabio Aru cobrava anualmente na UEA e o vai deixar de auferir daqui a dias quando acabar o contrato com a equipa dos Emirados. A fechar um top 10, temos por ordem decrescente: Michal Kwiatkowski da Ineos com 2,5 milhões, Julian Alaphilippe na Deceuninck/Quick Step que aufere anualmente 2,3 milhões, Alejando Valverde que cobra 2,2 milhões na Movistar, Nibali 2,1 milhões na Trek e a fechar a lista dos 10 mais bem pagos de 2020, está Richard Carapaz da Ineos com 2,1 milhões de ordenados/ano. E este top 10 podia ainda faturar mais se tivesse a liberdade de poder fazer uso da imagem para efeitos comerciais. Não, os direitos de imagem são quase todos pertença dos patrocinadores. E neste verão era ver Dumoulin e van Aert a fazer compras num supermercado Jumbo ou Peter Sagan a cozinhar, usando os utensílios de cozinha da Bora, a começar pelos seus famosos fogões, última geração em termos de extração de fumos.

Como felizmente não tenho que frequentar supermercados para ser filmado e fazer de conta que sou cozinheiro, aproveito para desejar a todos aqueles que continuam a procurar este blog sobre ciclismo e nos fazerem companhia com a sua leitura, um Natal divertido e precavido.

Jorge Garcia