Recordar um artigo publicado e iniciar uma luta ?

A pista ainda lá está, onde pode ser visivel o salão de chá edificado pelo Museu Soares dos Reis

Os espaços fechados para a prática do ciclismo são praticamente inexistentes no nosso país, o velódromo da Anadia é uma exceção ao deserto que se vive no nosso país, onde pistas ao ar livre são coisas raras.

Dois séculos atrás, as pistas de ciclismo eram das poucas estruturas desportivas que existiam. Impulsionados pela nobreza eram muitos os espaços ao ar livre dedicados ao ciclismo. Na cidade do Porto, atualmente sem nenhuma pista praticável, houveram em tempos idos, entre outras, a pista Rainha Dª Amélia, que já vamos falar um pouco mais à frente, a pista das Antas, e a pista do Lima, esta ainda visível um dos relevês no espaço que está ao abandono.

Há cerca de três anos publicamos um artigo que hoje voltamos a editar, para não esquecer e pedir a vossa opinião se valerá a pena travar uma luta para que o assunto não fique encerrado, e que se possam pedir responsabilidades a quem permitiu destruir o único espaço desportivo ainda existente, construído há dois séculos: a pista Rainha Dª Amélia, destruída por uma estrutura que , ironia das ironias, tem como objetivo preservar a nossa memória passada.

Uma parte da pista foi destruída para permitir um acrescento do museu, onde se criou um salão de chá, que acabaria por tornar a pista impraticável.

Vejamos o artigo publicado, num assunto que iremos dedicar algum tempo e que deveria merecer a atenção da Federação portuguesa de Ciclismo.

” A notícia já é conhecida de uma parte intelectual da cidade do Porto, dos seus historiadores , dos homens que nos transmitem e investigam tradições, culturas, usos e costumes, reconstruindo um passado longínquo, pleno de vida, muitas vezes escondido e esquecido.

O ciclismo foi, nos finais do século dezanove¸ uma modalidade das élites, e compreende-se, não haviam meios motorizados de deslocação, e a bicicleta permitia aos seus utilizadores uma certa ascensão social.

Estamos a falar da cidade do Porto, a mui nobre e leal cidade, de muitas lutas e tradições, e de um velódromo escondido, vergonhosamente, diríamos propositadamente ocultado , e mais grave, destruído e vilipendiado.

Os museus terão mais valor quando são “vivos”, isto é, conservam a integridade dos usos e costumes de determinada época e , nada mais visível seria, se o velódromo Rainha dª Amélia tivesse sido conservado , respeitado o seu passado e não fosse destruído para que, no seu lugar fosse reconstruído o tal museu “morto”, com salas de chã, espaços de aluguer, destruindo-se o que de importante mais representava para a cidade do Porto e para a história do desporto em Portugal.

Porto Alegre Vista geral da parte interna do Velódromo em 1900 (acervo  Ronaldo Fotografia). | Cidade de porto alegre, Porto alegre, Cidade
Uma concentração de ciclistas no século dezanove, no interior da pista rainha Dª Amélia. Destruir esta estrutura desportiva foi um crime.

Escondeu-se , destrui-se um velódromo que, em três voltas se percorria um km, como mandam as regras internacionais. Isto é, um velódromo de 333.3 metros, em plena cidade do Porto, uma cidade onde as estruturas desportivas não abundam e onde os monumentos são vilipendiados com a cumplicidade da Câmara Municipal.

Um espaço que fez falta à cidade, numa zona carente de instalações desportivas que permitam a prática desportiva de lazer.

É verdade, o velódromo rainha D.Amélia é um monumento, destruído grosseiramente, por quem não teve respeito pela história e passado da cidade e da história do desporto.

Memorabilia do Ciclismo Português: Maio 2014
Uma prova de pista realizada na pista Dª Amélia no Porto, pista que ainda existe e que foi destruída por quem deveria ter respeitado a história do desporto em Portugal.

O Velódromo D. Amélia, foi o maior recinto desportivo do Porto na primeira década de há dois séculos, como palco da modalidade que os tripeiros mais acarinhavam quando se começaram a interessar por desporto. Parte das suas instalações mantiveram-se intactas até hoje, o local onde está instalado é quase um segredo, e a grande maioria dos habitantes da cidade desconhece a sua existência num local tão nobre como as traseiras do museu Soares dos Reis e perto do Palácio de Cristal e do hospital de Santo António.

Há um segredo bem escondido no coração do Porto - TSF

O Velódromo do Porto surgiu um 1894, fruto da doação por parte do rei D. Carlos, no ano anterior, de um terreno ao Real Velo-Club do Porto para a prática do ciclismo. Uma prenda integrada nas comemorações do V centenário do infante D. Henrique. Não era o primeiro espaço na cidade ou arredores que recebia provas de amadores ou profissionais deste desporto. O primeiro estava instalado na Quinta de Salgueiros e pertencia ao Clube de Caçadores do Porto. Posteriormente, na serra do Pilar, construiu-se o primeiro Velódromo D. Amélia – assim batizado em homenagem à mulher do rei -, designação que seria transferida para a pista do Porto, passando a estrutura de Gaia a ter o nome de Príncipe Real.

O Velódromo foi instalado no jardim do palácio dos Carrancas, propriedade da família real desde 1861 e local onde esta costumava pernoitar quando se deslocava à cidade. O palácio dos Carrancas, recorde-se, é o actual Museu Nacional de Soares dos Reis. O estádio ficou situado nas suas traseiras, no interior de um quarteirão, o que o resguarda de qualquer olhar mais indiscreto e o torna quase desconhecido.

As portas do Velódromo do Porto encerraram em 1910 com a implantação da República e a ida do rei D. Manuel II para o exílio. O espaço foi doado à Misericórdia, mas em 1939 o Estado Novo decidiu “nacionalizar” o palácio e a sua envolvente para aí ser instalado o museu Soares dos Reis.

O espaço do Velódromo do Porto é hoje denominado Jardim da Cerca e integra as instalações do Museu Soares do Reis. Aí encontram-se em exposição alguns dos brasões das antigas casas senhoriais do Porto. O terreno foi objecto da última requalificação no contexto da “Porto’2001, Capital Europeia de Cultura”, numa criação do falecido arquitecto portuense Fernando Távora, que fez questão de preservar integralmente alguns dos elementos da centenária instalação desportiva. Assim, sem grande esforço, ao nível do solo são perfeitamente visíveis as duas curvas da pista, com os respectivos relevos. Uma recordação do primeiro espaço desportivo do Porto, que permite imaginar as loucas corridas que aí se disputaram e os 25 mil adeptos que a elas assistiram.

No jornal «O velocipedista», em 1895 escrevia-se:
«Real Velo Clube: Esta agremiação, tenciona inaugurar o seu velódromo, na quinta do Paço real d/esta cidade, que lhe foi concedida para esse fim por S. M. el-Rei, por ocasião das festas do centenário do Infante D. Henrique. O distinto engenheiro snr. Esteves Tomás, que é o segundo secretário do Club, já está levantando a respectiva planta da Quinta para esse efeito.»

Inaugurado em 1895 ali se realizaram muitas corridas e demonstrações desportivas, incluindo a primeira corrida de motorizada realizada em Portugal.

Hoje em dia está fechado, destruído, perdendo-se um monumento dos poucos que todos nós poderíamos utilizar, como o mais antigo recinto desportivo da cidade do Porto.

Fontes : Porto Antigo ; plataforma cidadania monarquia ; Património Memória e Identidade ; Porto, de Agostinho da Costa aos nossos dias;

3 thoughts on “Recordar um artigo publicado e iniciar uma luta ?”

  1. Nos anos 80 as épocas de ciclismo terminavam com provas de pista. Foram aqui realizadas várias com o apoio das entidades oficiais. Se não tem condições, há que reabilita-la.

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