Como beneficiar o infrator

Recentemente, o JN, anunciava na sua capa que 173 mil jovens são retirados aos clubes desportivos, à conta dos tempos que atravessamos. Já antes, por várias vezes, temos aqui assinalado essas perdas e pensado sobre as consequências a curto prazo quer desportivas, quer económicas, quer sociais, quer sanitárias, físicas e de grave incidência mental. Consequências, que se vão prolongar no tempo bem para além de qualquer período epidemológico.

A crítica, aqui já oportunamente feita às medidas que têm sido aventadas em catadupa e sem grande critério, não constitui uma redução política, sendo antes uma questão social que afeta de forma transversal as modalidades desportivas onde, como todos sabemos, se inclui o ciclismo. Medidas às quais, as sucessivas reduções orçamentais dedicadas ao desporto vêm dar ainda mais impacto negativo. Impacto, democrático, do desporto de formação, ao desporto profissional.

No quadro, as diferentes federações, vão tentando atenuar os efeitos negativos. No ciclismo, e no que à formação diz respeito, o recente regulamento financeiro prevê redução de 30 % no valor de inscrição para atletas que tenham estado filiados em 2020 e renovem inscrição para 2021. É, de facto, uma medida auxiliadora dos clubes que só se pode saudar e elogiar.

Mas talvez pudesse ir mais longe. Porventura estender o benefício a todas as inscrições, novas ou renovadas. Até porque, neste contexto, acaba por ser uma medida mais penalizadora para os clubes habitualmente promotores e integradores de novas filiações, algo de que nenhuma Federação poderá prescindir, porque são as novas filiações o motor das modalidades.

E, tendo em conta essa penalização, se somarmos que o regulamento de compensação pela formação, entre clubes, ao invés de ser corrigido para ser mais ágil, está simplesmente suspenso, esses clubes tradicionalmente acolhedores acabam por ser ainda mais penalizados.

O exemplo é prático, simples e perceptível a quem acompanha de facto o ciclismo. Se pensarmos na equipa de ciclismo da Bairrada que, como se sabe só tem o escalão de Juniores concentrando aí todos os seus recursos, diremos que esta vai beneficiar em larga escala da redução dos 30%. E se pensarmos no GDM-Escola de Ciclismo Alexandre Ruas, equipa que tem recursos divididos por todos os escalões formativos, é tradicionalmente acolhedora de novas filiações e, que fornecerá em 2021 quatro ciclistas (parece uma transacção Worldtour em que vai o chefe de fila e os equipiers!) que transitam de Cadetes para Juniores à equipa bairradina, a não ser que exista algum acordo entre ambas as formações que desconheço, à partida, sairá prejudicada.

Fica sem quatro bons atletas que transitariam para a sua equipa de Juniores, não recebe dinheiro pela compensação na formação e tem que ir procurar novos atletas que podem não ter estado inscritos em 2020, não beneficiando assim do desconto de 30%.

Sabemos todos que o mais difícil é integrar novos elementos em qualquer modalidade. O ciclismo não é exceção. Há muito que assumo que estas equipas só de Cadetes ou só de Juniores são praticamente inócuas na formação desportiva. Apenas aproveitam o duro trabalho de “partir pedra” dos outros e, ainda assim, escolhem as pedras mais moldadas. Útil seria se esses projetos fossem Sub-23. No enquadramento deste ano, não deveria a Federação beneficiar ainda mais o infrator.
Luís Gonçalves