O Expresso de Aderlass

Quando no final da época ciclística deste ano a imprensa francesa publicou uma entrevista com Johan Bruyneel (que pode o leitor encontrar um excerto aqui no Jornal Ciclismo, publicado em novembro) algumas campainhas tocaram, em vários pontos do planeta, porque o tema com o belga será sempre o caso de doping de Armstrong. E sabendo eu que os jornalistas franceses são o que de melhor há no jornalismo de investigação, achamos que esta entrevista era um aviso à navegação para o que virá em 2021 em termos de possíveis escândalos, envolvendo ciclistas de nomeada Na entrevista há várias pontas e vários sinais intermitentes. Não sei se o belga se quis vingar da UCI e da ASO e dizer-lhes: abram os olhos! Ou para se vingar de alguém que está no ciclismo e que já não deveria estar ou para gritar bem alto ao mundo do ciclismo: preparem-se porque vai haver festa em 2021. E se vai haver festa, ela já começou com o caso Aderlass, que passo a dar conta do que já se passou sobre este caso.

A operação Aderlass é uma investigação que decorre na Áustria e na Alemanha sobre alegadas praticas de doping conduzidas pelo médico alemão Mark Schmidt. Vários atletas de diferentes modalidades recorreram ao médico alemão para receberem transfusões de sangue ilegal que têm como objetivo melhorar a performance. A primeira confissão de tal ato foi confessada pelo esquiador de fundo Johannes Durr em fevereiro de 2019 que acusou Schmidt como cérebro de uma rede de transfusões. Do curriculum do médico alemão consta que tinha sido medico de duas equipas de ciclismo, Gerolsteiner e Milram. A primeira uma equipa alemã UCI ProTour, dissolvida em 2008 e a Milran, também UCI ProTour dissolvida em 2010. Após a confissão do esquiador de fundo a polícia alemã iniciou uma serie de investigações em instalações usadas pelo médico alemão e em pouco tempo descobria que 21 atletas estavam sob suspeita de serem clientes de Schmidt. Cinco esquiadores de várias nacionalidades foram presos e interrogados. Também estavam envolvidos treinadores de esqui. A Federação Internacional de Esqui proibiu durante quatro anos, três esquiadores que admitiram o doping. Do esqui para o ciclismo:

Em 3 de Março de 2019, o ciclista Stefan Denifi da Aqua Blue Sport confessou ter usado doping sanguíneo. Um dia depois veio a confissão de George Preidler da Groupama/FDJ. Foram ambos suspensos pela UCI. Mais tarde em maio de 2019, Danilo Hondo confessou a uma rádio alemã ter usado os serviços de Schmidt em 2011, então ao serviço da Lampre /ISD. O jornal Le Monde em maio de 2019 anuncia que Alessandro Petacchi já retirado em 2015, mas suspenso pela UCI em 2019, fazia parte do rol. Em agosto é a vez de mais três ciclistas serem apanhados na rede: Kristijan Koren (Bahrain/Mérida), Kristijan Durasek (UEA Team Emirates) e Borut Bosic, este último, como Diretor Desportivo da equipa Bahrain. Outro jornal de grande dimensão, Corriere Dela Sera, aponta Milan Erzen, Director Administrativo da Bahrain como possível implicado. A UCI declarava em 22 de maio que acompanhava as atividades de Erzen e do ciclismo esloveno em várias investigações.

O julgamento de Mark Schmidt começou em 16 de setembro de 2020 na Alemanha. Apesar da defesa ter apontado vários erros processuais, ao certo é que o médico alemão confessou a prática das 150 acusações que pendiam sobre ele. Confessou que extraía sangue desde 2012 aos seus clientes, mas de forma gratuita e que o fazia em total segurança. Vários desportistas que foram suas testemunhas e clientes disseram que os métodos eram seguros. Entretando Danilo Hondo acaba por declarar que quer ele quer Petacchi tinham pago 25 mil euros pelo doping sanguíneo o que veio contrariar o médio alemão sobre a gratuitidade dos atos. O julgamento ainda continua. O advogado de Milan Erzen negou que tenha trabalhado com Mark Schmidt, mas o médico contraria a tese, dizendo que o esloveno o procurou para um relacionamento comercial e lhe pediu uma centrifugadora para separar os glóbulos vermelhos do plasma. O jornal italiano Corriere Dela Sera considera Erzen o «Dominus» do ciclismo esloveno. O advogado do esloveno também tem prestado declarações, dizendo que o seu cliente nada tem a ver com o ciclismo atualmente e nunca houve nenhuma forma de cooperação entre o seu cliente e o Dr. Schmidt e muito menos com os ciclistas Pogacar e Roglic porque os mídia internacionais não entendem muito bem o sucesso destes dois ciclistas.

Mas, mais uma vez vem uma contradição desta vez de imaginem de Primoz Roglic que Erzen foi treinador dele na Adria em 2013 no início da carreira dele. Depois desse período, conta Roglic, o esloveno Erzen tentou contratá-lo várias vezes, mas que a relação de ambos é amistosa e pessoal, e só isso. A pandemia atrasou este processo que pode levar o médico alemão para uma cadeia alemã durante um mínimo de 10 anos.

Jorge Garcia