Uma nova janela

Arte e Arquitetura: "Janelas do Mundo" / André Vicente Gonçalves |  ArchDaily Brasil

Uma das perguntas que costumamos fazer a quem nos aparece pela primeira vez a dizer que quer competir no ciclismo, sobretudo se tiver de entrar para um escalão já com alguma intensidade competitiva (a partir de Cadetes) é se é a primeira experiência desportiva federada que têm, ou se já vêm de outra modalidade.

No quadro, tendencialmente acaba por ser bom sinal quando já têm experiências desportivas noutras modalidades. No fundo, já saberão o que é uma actividade física exigente e, até certo ponto da vida desportiva, é útil variar práticas desportivas. Não raras vezes são os melhores atletas no futuro. Obviamente que depois, entram as características próprias de cada modalidade, físicas, tácticas e, não menos importantes, as técnicas. Mas as traves mestras do desporto são comuns a todas as modalidades.

Sobretudo nas capacidades técnicas nota-se uma diferença grande entre quem, para além de ter alguma habilidade, frequenta o ciclismo desde tenra idade, e fez por exemplo muita gincana e os outros que começam bem mais tarde.

Claro, muito ocasionalmente, aparece um que tanto faz ter praticado antes do ciclismo, rugby, ginástica ou outra coisa qualquer, mas, quando se monta em cima da bicicleta (que já teria de utilizar, como será expectável) tem uma capacidade física e técnica, que teremos de corrigir muito pouco. Basta quase só formatá-lo para o ciclismo, nomeadamente na compreensão de situações de corrida. E se o indivíduo tem compreensão rápida, será ouro sobre azul. Nestes raros casos até nem será pior terem entrado na modalidade mais tarde. Não estão já tão saturados, como alguns, vítimas de especialização precoce.

Falamos aqui ainda de idades jovens. É certo que à medida que o tempo vai passando a capacidade de adaptação se torna mais difícil, até porque, à medida que os escalões vão avançando a exigência também é maior.

Ora, avançando na idade e no ponto de situação, o ciclismo profissional parece querer encontrar outro Roglic. Mas isso não é coisa que possa acontecer todos os dias. Evidentemente que quem contrata alguns desportistas de outras modalidades para se iniciarem no ciclismo de competição de forma séria, conhecerá as suas capacidades. E sem dúvida que os últimos exemplos nos demonstram capacidades físicas notáveis. Falta ver-mos o resto.
No primeiro campeonato do mundo de ciclismo virtual, que não passa disso, virtual, um remador impôs-se aos ciclistas. O palmarés diz que não é um remador qualquer. E no seu palmarés extra remo também já há participações em provas de ciclismo, nomeadamente, campeonatos nacionais de CRI, com resultados muito interessantes. Pelo caminho que isto leva será já uma tentação contratá-lo.
Há de facto desportistas que, com sucesso (e o sucesso mede-se em vários parâmetros), podem praticar (quase) qualquer modalidade. A moda cresce no ciclismo e, diga-se, com alguns bons resultados. O Michael Jordan, não foi tão virtuoso a jogar basebol ou golfe, como, evidentemente, a jogar basquete. Mas dava-lhe um jeito. Acima de tudo porque era um desportista nato. E estes desportistas de excepção não gostam de perder nem a jogar matrecos com os amigos. Mas, a questão essencial, é que os desportistas natos continuam e continuarão a ser muito poucos. Pode ser uma espécie de uma nova janela que se abre que nos trará uma brisa agradável, ou uma ventania que nos derruba tudo dentro de casa.
Luís Gonçalves