É bom e justo recordar Francisco Nunes

Francisco Nunes foi um diretor duro, exigente , extremamente sério. Um bom presidente da FPC e um bom organizador da Volta.

Nestes dias de confinamento é natural que muitos de nós façam uma introspeção ao passado, aos bons e maus momentos que vivenciamos ao longo dos anos. Num ou outro artigo de mais nostalgia recordamos diretores que deixaram memória, saudade e que não devemos esquecer. A nossa memória abrange com mais facilidade aqueles que nos recordamos pelos bons momentos, homens bons com quem já não temos a possibilidade de conversar, discutir ideias.

Já aqui falamos do Henrique Castro, fogoso presidente da FPC, felizmente ainda vivo, Serafim Ferreira, a quem o ciclismo muito deve, pela evolução que imprimiu na organização de provas, Jorge Lara, António Fernandes e Idalino de Freitas organizadores de muitas Voltas a Portugal, enfim de muitos outros que merecem a nossa gratidão por tudo quanto fizerem pela sua modalidade.

Hoje recordo Francisco Nunes, um dos mais distintos dirigentes com quem tive o prazer de trabalhar, conversar, discutir, aclarar ideias e aprender. Sério, duro, conciliador era um homem que assumia com verticalidade os cargos que ocupava.

Foi presidente da Federação, administrador da PAD e, nessa qualidade organizador de algumas Voltas a Portugal, muitas delas com prejuízos no seu final :

“- Ainda não sabemos em concreto o resultado, porque estão por apurar as receitas. Mas a Volta vai dar prejuízo, seguramente. No entanto, é um negócio como todos os outros, em que têm de se correr riscos. ” Era assim Francisco Nunes, assumia os riscos, mas cumpria-os até o final, desse por onde desse.

Na sua última Volta como organizador, já com a PAD falida, tínhamos recebido um cheque da entidade organizadora, a meio da Volta, que acabou devolvido por falta de uma assinatura, o cheque obrigava a duas assinaturas, de ajudas de custo pagas a cada equipa participantes. Tínhamos recebido metade faltava a outra metade, que foi paga no último dia da Volta, em Oeiras. Recebemos o cheque das suas mãos. com apenas uma assinatura. Voltei para trás e perguntei:

Sr. Nunes, o cheque só tem uma assinatura. ” – a resposta da Francisco Nunes : “ Tu já viste de quem é o cheque ? ” – Reparei para o cheque e constatei que era da sua conta pessoal. Falida a PAD, nem por isso Francisco Nunes deixou de cumprir os acordos estabelecidos e, nessa Volta nada ficou por pagar. Os outros, que com ele assaltaram o JN, num concurso polémico, tendencialmente resolvido deram às de vila diogo e desapareceram de cena pela porta pequena, na altura do aperto.

Com a música de Elis Regina como pano de fundo, sinto saudades desses tempos e de homens como Francisco Nunes que muito deram ao ciclismo.

JS