O ano de 2021 não pode ser mais penoso que o de 2020

Enquanto esperamos com alguma ansiedade pelo calendário velocipédico para 2021, aproveitamos a oportunidade para refletir sobre os desafios do ciclismo para esse ano, mas também já agora para os próximos.

Foram recentemente eleitos os órgãos para a Federação Portuguesa de Ciclismo que consagra uma nova Direção para um novo ciclo olímpico e sem que o anterior tenha sido concluído, o que permite a esta direção ter duas presenças olímpicas para gerir, uma já em 2021 onde teremos pela primeira vez um representante na vertente de Pista, e outra em 2024.

À frente da Federação continua Delmino Pereira pelo seu 3º ano mandato, a que se juntam mais uns anos enquanto membro das direções de Artur Lopes. Os anos que leva na Federação permitem conhecer como poucos o ciclismo português nas suas diferentes vertentes, características e necessidades. Apesar do ano de 2020 ter sido um ano muito complicado para o ciclismo português, Delmino Pereira conseguiu levar a cabo a realização da Volta a Portugal acabando por salvar o ciclismo português de uma situação ainda mais dramática. Da direção anterior não passaram para a nova direção José Calado, depois de muitos anos como número 2 de Artur Lopes e Delmino Pereira, , e que merece uma grande homenagem pelo trabalho que fez, como por exemplo na concretização da vertente de Pista em Portugal, sem o qual o sucesso das medalhas em Campeonatos Europeus e Mundiais seria mais difícil de concretizar.

Há que registar ainda duas baixas importantes, tanto mais pelas expectativas criadas de que seriam peças chaves no futuro da gestão da futuro após a saída de Delmino Pereira em 2024 – são eles Hugo Sabido e Sergio Sousa. E nenhuma das novas entradas irá colmatar estas baixas de peso. A direção da Federação volta a ter uma mulher na sua composição, depois de um hiato de mais de 4 anos, desde que Catarina Canha deixou a direção da Federação.

E é precisamente no ciclismo feminino que a nova direção tem talvez o seu maior desafio. O ciclismo feminino em Portugal é, e sempre foi, o parente pobre da modalidade. O número de filiadas representam cerca de 6 a 7 % do número total de filiados, situação que perdura há vários anos sem que tenha havido um esforço para aumentar esta percentagem. E quem anda de bicicleta nas estradas e trilhos de Portugal, sejam mais rurais ou mais urbanas, sabe que hoje temos muitas mais mulheres a praticar a nossa modalidade do que há meia dúzia de anos. É preciso em primeiro lugar trazer essas mulheres para a Federação incentivando a sua filiação. Depois convencer, ou mesmo obrigar, as equipas continentais portuguesas a ter ciclistas femininas do escalão de elite nos seus quadros competitivos, aumentar os apoios dados às equipas que apostam em ciclistas femininas seja qual for a vertente escolhida e promover um conjunto de provas, em particular na estrada, que sejam estimulantes e que promovam o desenvolvimento das ciclistas portuguesas. Temos hoje um conjunto de ciclistas que nos permitem ter alguma esperança no alcançar de êxitos internacionais: Maria Martins, Daniela Campos, Ana Santos, Raquel Queirós, mas também o recente anúncio do prematuro final de carreira da Daniela Reis, aquela que foi a nossa melhor ciclista nos últimos, nos deixa alguma preocupação.

Também nos escalões de Escolas de Ciclismo muito há para fazer, após demasiados anos sem evolução funcional e/ou organizacional. Quem assiste às preleções do Prof. José Luis Algarra sabe que este ensina que a partir da categoria de Juvenis o treino dos jovens ciclistas tem de ter muito maior rigor científico e utilizar um conjunto de ferramentas (pulsímetros, potenciómetros, etc.) e que até aí, nos escalões mais jovens, tal não é recomendado. Assim sendo, não seria de alterar os regulamentos e juntar a categoria de Juvenis com os Cadetes passando a serem Escolas de Competição? E a gincana desenhada há muitos anos e pensada exclusivamente para a vertente de estrada faz sentido nos dias de hoje? A Federação tem insistido no modelo de Encontros Inter-Regionais e Encontro Nacional que leva a juntar muitos clubes e jovens ciclistas numa grande festa, mas na verdade muitas vezes perde-se o foco da competição na poeira da lezíria. E há ainda a questão dos custos, uma vez que uma equipa de 30 ciclistas para se deslocar de Lisboa para o Algarve terá de preparar quase 1000 euros para o aluguer de um autocarro. E por último e de forma a que também as Escolas de Ciclismo contribuam mais para o desenvolvimento do Ciclismo Feminino deveria se alterar o regulamento de modo as meninas contassem obrigatoriamente para a classificação por equipas. Foram 4 anos perdidos na direção da Federação, que convém recuperar com alguma celeridade.

Os próximos tempos serão complicados na captação de patrocinadores. A crise financeira provocada pela Pandemia terá ecos no decorrer de todo 2021, pelo que um dos desafios da Federação já para 2021 será a redução dos custos das equipas. Por outro lado com o mundo virado, e ainda bem, para a bicicleta, as mesmas quase que “voam” mal chegam às lojas. As peças sobresselentes faltam e a procura pelo mercado leva a que os preços aumentem, pesando nos orçamentos das equipas. Assim para 2021 os calendários das diversas vertentes deveriam ter em conta a redução dos custos financeiros das equipas, principalmente nas amadoras. Por exemplo ter uma Taça de Portugal de BTT por zonas evitando que as equipas do Algarve se desloquem ao Minho e vice-versa, insistir junto das Associações Regionais na organização de Taças e Campeonatos Regionais que permitam às equipas terem provas e um calendário que lhes permita ter competição a um custo mais sustentável.

O ano de 2021 não pode ser mais penoso do que 2020. Se em 2020 quase não houve provas, em 2021 as provas têm que ter equipas e ciclistas. Tem de haver alegria, tem de haver disputas, tem de haver emoção.

Enquanto esperamos com alguma ansiedade, o sonho continua!

Paulo Coelho Vaz

2 thoughts on “O ano de 2021 não pode ser mais penoso que o de 2020”

  1. Uma excelente reflexão! O ano de 2020 não poderia ser mais atípico. Vamos acreditar que depois da tempestade de 2020 vamos ter uma oportunidade e muitas alegrias e emoções no ano de 2021.

  2. Será desperdício não aproveitar o aumento de utilizadores de bicicleta nomeadamente género feminino. Contribuirá p esse aproveitamento o apoio e incentivo às escolas de ciclismo q se for associado aos programas de ensino regular, será também um ensino de cidadania sobre o comportamento sobre os outros.

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