Viver na vertigem

Em 2004, o astro Diego Armando Maradona, esteve no funeral do inesquecível Marco Pantani. Talvez o argentino, como muito poucos, compreendesse já então o que era viver na vertigem, essa vertigem, que mais tarde ou mais cedo, acabou por consumir os dois.
A história de ambos, acaba por ter muito de semelhante. A paixão pelo desporto, a maldita cocaína, dopagem, eram os anti-sistema, sempre representaram de certa forma os explorados da sociedade, por vezes loucos de mais, questões com a máfia que dificilmente conheceremos. Mas eram dois verdadeiros génios, cada um no seu fenómeno desportivo, ultrapassando por isso barreiras de popularidade concentrada numa modalidade.

E aos génios, bem ou mal, acabamos por desculpar tudo. Não é que os tomemos por exemplo de vida. Isso, como se sabe, não seria de todo positivo. Mas os seus feitos, que são verdadeiramente genuínos e geniais, fazem parte do seu talento natural, ultrapassam tudo. São daqueles personagens que raramente aparecem, ora no desporto, ora nas artes, ora até na política que também consegue dividir paixões. Uns apreciarão Che Guevara, outros detestarão Che Guevara. Uns apreciam o revolucionário, outros detestam o sanguinário. Mas, terá de ser sempre um pouco no meio de tudo que encontraremos estes ídolos.

Os resultados de Pantani, foram vastos. Contudo, pode-se dizer que “só” venceu um Tour e só o deixaram vencer um Giro, ambos em 1998, já de si, uma acumulação ao alcance de muito poucos. Mas a sua forma de ser, a sua irreverência, a camaradagem nessa irreverência com Cipollinni, acabaram por revolucionar a forma como vemos hoje o ciclismo. Uma forma muito mais comercial e colorida. Passámos das obrigatórias meias brancas, para meias de todas as cores… Esse é um palmarés que ninguém pode tirar a Pantani. É também por isso um ídolo.

Não há muitos exemplos de ciclistas que ganharam “apenas” um Tour e são tão mundialmente consagrados. A alternância de vitórias é vista como algo saudável. E será, até porque já estamos todos fartos de ver o Lewis Hamilton ganhar na fórmula 1. Mas o ciclismo, como o desporto no geral, mitifica a longa escala de vitórias.

Andando para trás, os nomes mais reconhecidos são esses. Os grandes mitos são os que venceram vezes sem conta. Usain Bolt, venceu vezes sem conta. É o primeiro que nos vem à cabeça no atletismo de velocidade. Sebastian Loeb (nos ralis) venceu vezes sem conta…

Mas, muito ocasionalmente, aparecem os grandes mitos que não venceram assim tantas vezes. Loeb, ganhou vários campeonatos do mundo, Colin Mcrae, “apenas” um, mas se forem perguntar à generalidade dos fãs de ralis quem preferem, muito provavelmente, a tendência pende para o escocês.

Pantani, Maradona, Mcrae (este, de uma forma mais sóbria) viveram sempre na vertigem. Numa vertigem genial, essa que fará eternamente deles super ídolos, sem vencerem cinco Voltas a França e sem serem perfeitos.

Evidentemente, uma morte cedo e com tragédia à mistura ajuda ao mito. Talvez fosse isso que faltasse a Lance Armstrong. Sendo assim já teria de novo as suas sete Voltas a França, estátuas e homenagens póstumas por todo o lado. Mas Armstrong não fez essa desfeita. Viveu e vive numa vertigem diferente. É de outra massa diferente da de Pantani e Maradona. É um virtuoso mais cauteloso que, provavelmente, não se deixou envolver tanto pelo mau mundo que normalmente rodeia estas estrelas e que tanto fazem deles brilhantes, como cadentes.

Maradona teve uma multidão à porta do palácio presidencial. Pantani teve uma multidão no seu funeral. Maradona, como nunca tinha sido visto até então, entrou em Nápoles com 85 mil pessoas no estádio em delírio e um mar de gente nas ruas. Saiu de Nápoles, sete anos depois, e após perder a sustentação política e de outra espécie que tinha, sozinho. Pantani, foi o ídolo de multidões. Onde quer que fosse existia uma revolução. Depois de ser expulso do seu Giro, que liderava com vários minutos de avanço, ficou, sozinho. Reapareceu, para ficar de novo, sozinho. É normalmente a parte trágica da vida dos grandes mitos.
Luís Gonçalves