Uma análise da temporada diferente

Em final de temporada as análises são um tema fulcral, com que muitos especialistas se debatem, para ,por caminhos mais ou menos diretos, chegarem à conclusão quais foram as equipas e ciclistas que mais se destacaram.

A temporada que agora findou, com a realização da Vuelta, foi de alguma forma incongruente, com uma série de fatores que influíram diretamente no rendimento das equipas e ciclistas, proporcionando condições de preparação normais a muitos ciclistas , mas muito condicionadas a outros, conforme as leis de confinamento de cada um dos países. Houveram ciclistas que conseguiram treinar normalmente na estrada, e houveram outros que durante um longo período, só o puderam fazer com treinos de rolos, por exemplo .

Num ano incaraterístico, os mais prejudicados com a ausência de um quadro competitivo alargado a toda a temporada, e com muitas provas, foram os ciclistas mais veteranos, que necessitariam de mais dias de competição para encontrarem o seu ritmo competitivo. Pelo contrário, com uma maior capacidade de adaptação, os ciclistas jovens saíram mais beneficiados, pois não necessitam de um quadro competitivo tão intenso para adquirirem o seu estado de forma.

Não admirará, portanto que no quadro dos maiores vencedores de 2020, surjam os nomes de Tadej Pogacar e Remco Evenepoel, como os ciclistas que mais provas venceram, ultrapassados apenas por um sprinter, Arnaud Démare mas cujos triunfos não atingem, nem de longe nem de perto, a qualidade dos triunfos do esloveno e do belga.

Vejamos nesta análises a idade dos que mais venceram em 2020:

Arnaud Demare – 14 triunfos – 29 anos

Pogacar – 9 vitórias – 22 anos

Evenepoel – 9 vitórias – 20 anos

Roglic – 8 triunfos – 31 anos

Pascal Ackermann – 6 triunfos – 26 anos

Sam Bennett – 6 triunfos – 30 anos

Van Aert – 6 triunfos – 26 anos

Filippo Ganna – 6 triunfos – 24 anos

Deste lote de vencedores, podemos ainda tirar, mais uma conclusão, que é normal, que os ciclistas com mais idade são sprinters, portanto com mais hipóteses de ganharem, e que também gozam de uma mais rápida adaptação ao ritmo competitivo e o caso suis generis de Roglic, que embora seja o único trintão da lista, tem um passado ainda recente do ciclismo, em comparação com outros ciclistas , pois o esloveno, veio oriundo do esqui.

Temos pois que 2020, foi o ano de redenção para os jovens, não só para os aqui nomeados, mas também para a ascensão e glória de João Almeida, Mads Pedersen, Tao Geoghegan, Jay Hindley, David Gaudu, Aleksandr Vlasov, nomes que não atingiram ainda os 25 anos, e que conseguiram a sua glória, ou no Giro ou na Vuelta, ou em provas de um dia.

No Tour, os jovens já não conseguiram um grande destaque em termos quantitativos. Valeu pela qualidade do triunfo de Pogacar, mas nos 20 primeiros apenas encontramos, Enric Mas no quinto lugar, com 25 anos e Van Aert mas já em 20º, também com a mesma idade. Na prova francesa, a maior desilusão foi de um jovem, do colombiano Egan Bernal .

A questão que se levanta para futuro : serão estes jovens, que aparecem prematuramente, dotados para uma longa carreira desportiva, ou pelo contrário, a sua permanência na alta roda do ciclismo será efémera ? Isto só o futuro o dirá, mas o que se pode inferir desta sucessão de nomes uns atrás dos outros, é que o grande público vai ter pouco tempo para se afeiçoar a nomes permanentes no pedestal velocipédico. A marca de gerações de nomes, como Coppi, Anquetil, Merckx, Hinault, Indurain, Armstrong, Froome parece ter terminado. Falta saber se é bom ou mau para a modalidade e para o adepto, que sempre se habituou a lidar com nomes fortes, durante alguns anos.

Em termos coletivos, a equipa vencedora neste improvisado ranking foi, mais uma vez, a Deceuninck-Quick Step, com 39 triunfos no total. Mas onde os belgas mais se distinguiram foi no pormenor de terem sido a equipa com maior número de vitórias em provas por etapas, uma especialidade em que a formação de Lefevere nunca se sentiu muito bem à vontade. Em triunfos absolutos, a Deceuninck obteve 19 vitórias , 14 em provas de um dia e cinco em provas por etapas, sendo os restantes vinte triunfos obtidos em etapas.

Significará esta mudança de objetivos dos belgas, uma estratégia definida no início de temporada, ou pelo contrário , fruto do acaso do surgimento de Evenepoel e de João Almeida ? Seja como for, a Deceuninck tem ainda um grande trunfo para as provas por etapas: referimo-nos a Julian Alaphilippe que já deixou no ar que pode vir a ganhar um dia o Tour.