Os coveiros do milagre português

Aqui há uns tempos anunciava-se o milagre português. Obviamente, com créditos para os políticos. É normalmente assim quando as coisas correm bem. Já quando correm mal a culpa é dos portugueses e da sua forma de ser, culpa democraticamente distribuída (porque os enfermeiros agora são uns heróis, mas há um ano eram uns vadios, e por aí adiante…), democracia que só falha na distribuição, para os políticos.

Mas, afinal qual será o verdadeiro milagre português. Bem, sabemos, tentar trabalhar nos locais de saúde, tentar trabalhar nas escolas, pelos temos que correm tentar ser apenas trabalhador, categoria inferior à de contribuinte, essa sim, lustrosamente assegurada. Ser trabalhador, sobretudo quando o país está a parado com o exemplo do Estado e de uma boa parte dos serviços do Estado. Local e central. Já estava semi parado por ineptidão e agora parou de vez.

Estava a ver a vitória do Miguel Oliveira (prontamente congratulada pelos mais dignos representantes do Estado actual e pelo estado das coisas) e lembrei-me que o verdadeiro milagre português, só podiam ser os portugueses, excluindo, e sendo simpático, oitenta por cento dos políticos.

No desporto, temos estado bem. No motociclismo, no judo e, como nos agrada mais, no ciclismo. Mas de quem depende isso? dos portugueses, excluindo a tal percentagem de políticos.

Outros sectores serão atacados. Mas o desporto, no geral, é severamente punido. Se olharmos então para o panorama formativo e para o que espera o futuro das modalidades, só podemos apresentar uma visão de desgraça. Uma desgraça que extravasa os resultados desportivos e que alcança o paradigma social. Porque o desporto, como outros sectores que o Estado não consegue completar, tem uma função social, económica e sanitária essencial para a sobrevivência de qualquer país que se pretende civilizado. Até aqui estamos na cauda da Europa.

O problema, que até será comum à cultura e à área da saúde, como outras, não é só de agora. É estrutural. Porque temos sido governados por gente com visivelmente cada vez menos capacidade, aqui, como na Europa. Nota-se mais agora, apenas, porque nos deu um aperto mais sério. E se calhar daqui a uns anos até vamos considerar que não foi assim tão sério.

Os políticos, os maus políticos, encontram sempre culpa nos outros ou nas contingências. É a forma política mais actual. Fraca e deprimente, sobretudo para quem é familiarizado com a História e os grandes exemplos políticos que, ocasionalmente, ela nos dá. Quando algo corre mal a culpa ou é dos fregueses ou do presidente de junta anterior (e aqui é interessante… já interessa pouco o partido!).

Ao longo dos anos, o desporto português tem sido um milagre. Até as poucas medalhas olímpicas que temos são um milagre. No fundo, o quarto segredo ainda não anunciado, de Fátima. O Miguel Oliveira é um milagre. O João Almeida e o Ruben Guerreiro são um milagre. A malta da pista, no ciclismo, é um milagre. A malta do Judo é um milagre. Não são milagre por não terem competência. Bem pelo contrário, têm de ter muito mais do que os outros. São um milagre porque o Estado português é uma nulidade desportiva. O único interesse é formar treinadores doutores com as sublimes regras do IPDJ. Uma falácia imensa que ignora o que é o fenómeno desportivo real.

Estes confinamentos, ou o que lhe queiram chamar, legais ou ilegais, vão acabar com o resto. Patrocínios, tempo de treino, moral. Numa outra modalidade que não a nossa, vi uma miúda de selecção colapsar psicologicamente. Para além da falta que a formação desportiva lhe faz, vê também a sua vida académica andar para trás (poderia ir para medicina, à conta do seu desporto… o andebol). Daria muitos outros exemplos de colapso de jovens desportistas. Deprimente. E o que faz o Estado? Nada. Absolutamente, nada!
Conheço o ciclismo. Não está fácil. Mas não poderei falar só por nós. Com orçamentos de Estado ridículos na área desportiva, com políticos absolutamente incompetentes, também esperava algo mais das Federações. Todas. A não ser que também estejam no escalão político.

Chegámos a uma altura, na formação, em que já não sabemos bem o que fazer. Teremos ideias, mas, por mim, apesar de não ser seu especial fã e de saber que as suas intenções são diferentes, cada vez concordo mais com aquele que diz que estes governantes vão ser, definitivamente, os “coveiros do desporto português”. Depois disso, apenas nos fica a restar o verdadeiro milagre português. Nós mesmos. Os dirigentes, os patrocinadores, os atletas, os pais, bem mais do que o Estado, os pais. Será, de novo, a sorte dos políticos para se pavonearem com os resultados desportivos. E que pavões temos tido!

A situação, pelas dificuldades crescentes, tem tendência a radicalizar-se. Serei, agora, porque vivemos do imediato, julgado apenas por isto e não pelo que já expus de ponderado noutras alturas e que dispensarei de repetir. Consultem. Mas se isto se dividir entre situacionistas sanitários e negacionistas (como é agora moda. Aliás, não está na moda dizer nada que vá contra o poder estabelecido, por isso e cada vez mais, a radicalização), contem comigo para o segundo grupo. A morte pela cura será bem mais lenta, frustrante e duradoura. E envolverá seriamente as gerações de futuro. De outra forma, que futuro?
Luís Gonçalves

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