Contributos para um ciclismo novo ( 1 )

Um plano de desenvolvimento desportivo para uma modalidade complexa como ciclismo, na área da competição, tem como é natural algumas componentes essenciais para a sua execução, um dos quais por mais que o desejemos implementar não conseguimos arrancar sequer, que é a disponibilidade financeira para a sua exequibilidade.

O quadro competitivo de uma prova de ciclismo é complexo, porque obedece a uma série de variantes que não existem na maioria das modalidades desportivas. Sem procurarmos ser exaustivos atentemos:

Arbitragem – número excessivo de elementos , cerca de dez árbitros, e que obriga a despesas de deslocação, alojamento, viaturas para o desempenho das suas tarefas, bem como o pagamento da sua atuação.

Policiamento – custos excessivos em relação a qualquer outra atividades .

Apoio a participação de equipas – ajudas de custo às equipas participantes, o que é um dos casos únicos no panorama desportivo nacional.

Estruturas – obrigatoriedade de montagem de um sistema de sinalização do percurso, barreiras de proteção do público na partida e chegada, pórtico de meta e pódio .

Viaturas necessárias para a realização de uma competição : carros de apoio neutro ( dois ), ambulâncias ( duas ) carro de médico, carros oficiais para comissários ( 4), motos de comissários (2), motos bandeiras amarelas ( 4 a 6), carros vassoura, carro para montagem de sinalização que parte na dianteira, viatura para retirar sinalização.

Sistema de cronometragem para realização das classificações , rádio volta para informação do desenrolar da prova.

No total, para o desempenho de todas estas tarefas serão necessários , e sem exagero perto de 40 pessoas, senão vejamos:

Montagem de estruturas de partida e chegada : 6 pessoas.

Cronometragem : 2 pessoas

Apoio neutro – 4 pessoas.

Carro vassoura – 1 pessoa

Ambulâncias – 4 pessoas

Médico – 3 pessoas – conduto, médico e enefermeiro.

Comissários – 10

Motos – 6

Speaker – 1

Diretor organização – 1

Isto sem querermos ser exaustivos e, em linhas gerais, para uma prova mediana, o que nos dá uma perspetiva dos custos diários de uma prova de ciclismo.

Onde queremos chegar com tudo isto ?

1º Não é fácil encontrar apoios para a realização de muitas provas, com esta elevada despesa.

2º Para a realização de uma atividade alargada a todas as categorias é imprescindível uma gestão apertada, de forma a que todas as categorias possam competir, o maior número possível ao longo do ano.

Naturalmente que poderíamos reduzir substancialmente estas despesas se, por exemplo, realizássemos algumas provas em circuito, mas este figurino, que pode ser aplicado num quadro competitivo algumas vezes, nunca pode ser o principal, principalmente a partir do escalão de cadetes.

A realidade do ciclismo nacional é transversal a todo o país. Não temos uma única região que permita com os seus ciclistas inscritos organizar uma prova com interesse competitivo, daí a necessidade de realização de provas a nível nacional. Poder-se-ia estudar . conforme o número de inscritos em cada escalão organizar provas por zonas, por exemplo duas zonas demarcadas : norte e sul, que é positivo para uma forma de evitar deslocações longas.

Tendo em conta o que a realização de uma prova implica em termos financeiros, não é assertivo que nos possamos dar ao luxo de termos um calendário semanal para todas as categorias , só o conseguindo ao colocar em prova duas categorias em conjunto.

O primeiro grupo a emparelhar seria entre os juniores e os sub-23, com abolição do limite de andamentos, o que aliás já é seguido pelos principais países do mundo, no escalão junior, que deixaram de ter limite de andamentos. Um ponto a ter em linha de conta seria apenas a quilometragem máxima, que poderia ir até aos 130 km. tendo em conta naturalmente as dificuldades de cada percurso.

Difícil para os juniores de 1º ano, competir com os sub-23 ? Se avaliarmos bem a situação, não é menos difícil para um sub-23 de 1º ano, correr em conjunto com os profissionais.

O segundo emparelhamento seria entre os sub-23 e os profissionais, o que já acontece e com grande êxito, diga-se em abono da verdade, permitindo ao escalão mais jovem uma evolução muito superior aos sub-23, por exemplo, da vizinha Espanha. Não é por acaso que Portugal, tendo muitos menos ciclistas sub-23 que a Espanha, consegue obter melhores resultados que os espanhóis, quando em competições internacionais, destinadas apenas a este escalão, o que torna incompreensível a ida para Espanha de muitos jovens portugueses.

Esta teoria de colocar cada vez mais os escalões de formação a competir com os de nível superior, tem permitido uma grande evolução em outras modalidades , que têm adotado este processo com muito sucesso, até em termos internacionais..

O problema de colocarmos os sub-23 a correr com os profissionais tem, contudo alguns inconvenientes, dada a pouca homogeneidade em termos de qualidade de uma equipa sub-23. Isto é, poucas , diríamos mesmo nenhuma, dispõe de um conjunto de sete ciclistas que consiga competir seriamente com os profissionais. Que fazer então ?

1º Permitir que compitam com os profissionais as duas/ três melhores de um ranking nacional.

2º Formação de seleções regionais, agrupando os melhores ciclistas de cada equipa; norte – centro e sul . Esta solução seria a ideal, mas de difícil implementação no nosso país .

Um problema que se coloca em termos de futuro e que a FPC terá de estar atenta, é a possível proliferação de equipas sub-23 sem estruturas, que ao aumentarem o número de equipas, irão ocasionar um aumento desproporcionado de despesa para um organizador, diminuição da qualidade competitiva deste escalão, aumento de despesas em policiamento, incremento de acidentes por falta de segurança, para os ciclistas que seguem atrasados.

Naturalmente que haverá sacrifícios pelo caminho, muitas vezes incompreendidos por uma insuficiente preparação , em especial por parte dos formadores, mas é por todos reconhecido que os triunfos nas camadas de formação não refletem, no futuro, os triunfos dos grandes vencedores. Isto é, a formação não tem como objetivo o triunfo, mas sim a evolução de um atleta .

One thought on “Contributos para um ciclismo novo ( 1 )”

  1. A solução tem de passar por circuitos. Não entendo porque não é viável… Temos o exemplo de um novo ciclismo, as provas organizadas pelo velon, “Hummer series”, que penso que serão o futuro do ciclismo
    Para além destas provas se desenrolar em em circuito, apresentam um sistema de classificação, mais atrativo para o público.
    -mais espetáculo
    -mais segurança (circuitos fechados)
    -faculidade de transmitir a prova em direto (TV ou internet)
    -custos reduzidos

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