Uma desigualdade difícil de contornar

Este ano de 2020 colocou a formação desportiva de pantanas. Todas as modalidades se queixam, umas mais outras menos, mas o que é certo é que as paragens formativas a que estamos a assistir terão reflexos bem negativos a curto/médio prazo.

A forma de organizar 2021 é ainda entrar no desconhecido, sabendo que, um 2021 igual ou idêntico pode ser uma facada quase mortal em boa parte do tecido desportivo português. Não é portanto fácil organizar uma nova época, para nós, ciclismo, mas convém que se comece a pensar seriamente e a trocar ideias de forma útil.

No contexto, olhar para o panorama global é muito difícil. A ideia aqui avançada de colocar Sub-23 e Juniores a competir juntos, não é nova, teve já alguma prática em tempos, com alguns dividendos.
Tendo em consideração que o calendário exclusivamente Sub-23 é uma miragem (e esse sim, é que seria útil como já nos provou o passado recente) do ponto de vista evolutivo, com tempo, de alguns Sub-23, manter as provas em Juniores não é, de todo negativo. O mesmo se aplica a alguns Juniores que teriam oportunidade de já competir com o escalão superior numa adaptação mais gradual.

Mas, 2020, foi um ano estranho e que nos trocou a normalidade. Se olharmos a montante, podemos encontrar numa equipa de Cadetes de dez elementos, quatro de segundo ano que começaram (tentaram…) a correr em 2020, mais três que começaram em 2019, com probabilidade, um, já em fim de época. Dos quatro novos, fizeram em 2020, duas/três corridas em pelotão, que são as que mais interessam para adaptação ao ciclismo de estrada. Somam-se três meses sem possibilidade de treino colectivo. Imaginando que os sete passam a Juniores em 2021, onde correriam o risco de competir vezes a mais com Sub-23, com vários anos de formação na modalidade, característica que, naturalmente, nos faz distinguir em demasia, uns de outros e que rapidamente faz esmorecer os primeiros, sobretudo porque, apesar de um ou outro ter qualidade, ainda têm muito pouca ligação sentimental à modalidade.

Outra questão que se coloca sempre neste âmbito é a dos andamentos, limitados nos Juniores, livres nos Sub-23. A tendência é deixar os Juniores, pontualmente, com andamentos livres. Ora sabe-se que nestas idades os mais importantes patrocinadores são os pais. O chamado paitrocínio! E, o que eu tenho visto, é que não está fácil. Se há pais que até abusam no que compram, muitos, a maioria, têm o dinheiro contado. Ter cassetes diferentes, provavelmente rodas diferentes, até pedaleiras diferentes, ou mesmo uma bicicleta diferente, tudo para aumentar custos de manutenção, não tem estado ao alcance da maioria e a tendência é piorar. É um panorama infeliz, mas é assim.

E não são as equipas que conseguem assumir essas diferenças, sobretudo porque cada vez mais aparecem bicicletas e rodas com características diferentes. Por exemplo, os travões de disco não vieram ajudar nada. Ainda há pouco tempo as únicas preocupações, num escalão, eram o número de mudanças de cada atleta (por causa das rodas suplentes) ou o tipo de pedais (por causa da bicicleta suplente). Enfim, é o mercado.

Como já foi dito, juntar Juniores e Sub-23, é útil. Mas terá de passar sempre por ser algo pontual. E mesmo sendo pontual e usado com evidente prudência, ainda assim, será sempre limitado a alguns, correndo o risco de deixar para trás uma boa parte do pelotão. Ou então, sendo abrangente, os resultados nunca deixarão de ser enganadores. Isto se o objectivo de uma medida destas for, de facto, formar ciclistas.

Claro, o ideal era ter um extenso calendário exclusivamente Sub-23, como ainda há relativamente pouco tempo sucedia. Aliás não se teriam colocado estas ideias se esse calendário fosse real. Apesar de isso não suceder muitas equipas de formação têm optado por fazer crescer as suas estruturas com equipas Sub-23, acima de tudo, essencialmente, para fazerem escoar os seus próprios Juniores para o escalão seguinte, dando-lhes oportunidade de continuar a competir. Se eu fosse jovem ciclista estaria atento às equipas que dão essa possibilidade. E tantas vezes os jovens ciclistas (e os pais) falham nesta característica. Não se pode culpar só o sistema. Às vezes a culpa também é própria.

Neste caso acaba por existir alguma possibilidade de competição, embora, vezes a mais, logo, entre os profissionais. Há de facto a tal falta do espaço de adaptação. Muitas vezes não será só por falta de qualidade. É óbvio que alguns ciclistas não vão ser profissionais, mas outros, mesmo com resultados menos luminosos, precisam apenas de um bom incentivo, aquele que não tem existido no ciclismo nacional. Ou seja, preferem dedicar-se a uma vida estudantil que lhes pode abrir mais portas e menos à bicicleta. Por certo, não farão mal, porque destes, mesmo os que têm alguma qualidade, são normalmente sub avaliados.

Deixamos de fora as escolas, porque esses têm mais tempo. Mas entre os Cadetes e os Sub-23, porque isto não é exclusivo de um escalão de formação (daqui a pouco tempo alguns Cadetes já serão Sub-23, se os deixarem lá chegar), não vai ser fácil acertar nos planos formativos, nomeadamente, se não quisermos acentuar ainda mais as desigualdades radicalizadas por este 2020. E ao acentuar as desigualdades podemos estar a criar e alimentar falsos campeões e a omitir os verdadeiros campeões do futuro.
Luís Gonçalves

One thought on “Uma desigualdade difícil de contornar”

  1. Só uma opinião de quem não percebe nada disto e anda cá á pouco tempo e qual o incentivo da Federação Portuguesa de Ciclismo para que apareçam mais equipas de sub23 (Esperanças).
    Não deveria ser a própria Federação a tentar incentivar os clubes a terem equipas de sub23, não seria bom obrigar as equipas ditas profissionais a serem obrigadas a ter uma equipa satélite, onde teriam obrigatoriamente que ter o escalão pre-profissional… isto sou eu a divagar… já sei que me vão dizer que as equipas não tem estrutura para isso, mas também são essas equipas que muitas vezes nada fazem para que essas formações de sub23 tenham continuidade, pois vão buscar muitas vezes os atletas e nem os deixam correr ou correm apenas 2 corridas por época…
    Como diz o nosso Poeta Luis de Camões, o problema são os “Velhos do Restelo”, pois são os que continuam eternamente a fazer com que a pouca evolução do ciclismo seja a mesma estável ou nula.
    Falta sangue novo, falta arriscar mais, falta inovar… e nisso está Federação não aposta.
    Digo eu que não percebo nada disto e que sou novo na coisa.

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