Um balanço sobre a temporada World Tour

Feitas as malas, é o regresso a casa para muitos ciclistas, alguns deles com meses em competição, numa época feito de muito improviso, muita inconstância, que necessariamente se refletiram nas performances individuais e caraterísticas de cada ciclista.

Nesta amalgama de salve-se quem puder, houveram ciclistas em período de confinamento impedidos de treinar, foi um período louco de improvisadas competições em rolos, outros percorrendo autênticas maratonas, numa preparação desajustada, que necessariamente se veio a refletir depois nas competições.

Principais beneficiados com a situação: os ciclistas naturais de países que permitiram o treino na estrada e os ciclistas mais jovens, com uma maior capacidade de adaptação, menos necessidade de treino orientado, e capacidade para mais rapidamente atingirem a sua forma física.

Depois de muitas provas anuladas, o Tour veio dar consistência ao ciclismo profissional, e foram os países tradicionais da modalidade que o salvaram da extinção , principalmente França, Itália e Espanha países com números elevado de pessoas infetadas com o Covid, mas que aguentaram algumas das suas principais competições.

Julian Alaphilippe: desta vez ganhou mesmo
O triunfo de Alaphilippe na Fléche Brabaçonne à frente de Van der Poel. Dias antes o francês tinha perdido a Liége -Bastogne-Liége por levantar cedo demais o braços em sinal de vitória-.

Numa análise ligeira comecemos pelas clássicas, onde três nomes sobressaíram : Van Aert vencedor da Strada Bianchi e Milão S.Remo, segundo no Tour de Flandres , Van der Poel como vencedor do Tour de Flandres, Julian Alaphilippe campeão do mundo, vencedor da Fléche Brabaçonne, segundo do Milão – S.Remo e Liége-Bastogne-Liége. Falamos nestes três, porque foram aqueles que mais corridas de um dia discutiram entre si, com duelos épicos, como o protagonizado por Van der Poel e Van Aert no Tour de Flandres.

Van der Poel foi um dos ciclistas mais proeminentes desta temporada, com importantes triunfos , sendo o mais significativo o Tour de Flandres.

Mas outros ciclistas conquistaram triunfos de grande importância, como Marc Hirschi,na Fleche Wallonne, Primoz Roglic, na Liége-Bastogne-Liége, Jakob Fulgsang ,no Giro da Lombardia, Mads Pedersen ,na Gent Wevelgen consagrando-os como os nomes mais sonantes em provas de um dia.

Passando para as provas por etapas, o primeiro nome a lembrar foi, sem duvida Remco Evenepoel. O belga já não corre há muito, desde que teve aquele acidente no Giro da Lombardia, mas começou a ganhar, na Argentina ( S.Juan) repetiu no Algarve, descansou um pouco para ganhar em Burgos e terminar na Polónia, onde deu festival, e só interrompeu este ciclo por aquilo que atrás dissemos. Foi pois, o nome da época. Jovem, a grande esperança dos belgas para vencer um dia o Tour, terá que esperar mais um ano para fazer a sua estreia numa prova por etapas de tês semanas, e avaliarmos o seu comportamento na alta montanha. Dado o peril do Tour de 2021, a sua estreia parece eminente.

Remco correu pouco mas ganhou muito.

Mas se Remco começou bem a época, quem nunca se endireitou foi Egan Bernal. O colombiano deu esperanças quando ganhou a Occitanie, prova modesta francesa, mas depois foi fracasso atrás de fracasso, que se veio a refletir na improvisão da Ineos na planificação das outras provas. E veio o Tour e com ele o grande triunfo de Pogacar, à frente de um Roglici demasiado stressante . Os dois eslovenos dominaram a prova à vontade. A Ineos era uma sombra de si mesma. Mais jovem, Pogacar acabaria por ser o vencedor, no seu terreno, para onde Roglic se deixou levar: o C/R. Foi uma desilusão para a Jumbo -Visma, que viu tudo ir por água abaixo para uma equipa, que não tinha… equipa, pese a metáfora. Na verdade. Pogacar ganhou sozinho, aguardando, depois dos erros cometidos pelos holandeses que nunca se preocuparam em ganhar mais tempo ao ciclista da UAE.

No Giro, foram os jovens que fizeram história, perante uma plateau, de alguma fragilidade, mesmo em comparação com a Vuelta. Emparedado entre o Tour e a prova espanhola, o Giro atraiu poucos nomes sonantes. João Almeida, Filippo Ganna e Demare foram as estrelas da prova, a par de uma Sunweb endiabrada, que acabaria, contudo por não vencer, mau grado Kelderman e Hindley o tentarem. A Ineos, que tinha aprendido que a atacar podia ganhar mais do que a defender, venceu sete etapas e a geral final com tao Hart Geoghegan, nome complicado, como complicado foi o seu triunfo.

Os melhores da Vuelta : Carapaz – Roglic – Carthy

A Vuelta fechou a temporada em beleza, com um duelo épico, entre Roglic- Carapaz e, porque não Hugh Carthy. O esloveno ganhou, foi o mais tático, isto é, foi o que melhor percebeu que as bonificações poderiam ter peso no final. Carapaz foi o melhor na montanha, o que deixa para futuro uma mensagem: Roglic é frágil na alta montanha, e se conseguiu este triunfo, bem o pode agradecer aos seus colegas de equipa, em especial Kuss, Pormenor que Carapaz nunca teve. O equatoriano, ironia das ironias, teve que trabalhar sempre sozinho e nunca teve ajuda, a ajuda que permitiu a Roglic ganhar a Vuelta, vinda da desorientada Movistar. Quem com ferros mata, com ferros morre, mas o ditado não se aplica no desporto de alta competição, onde não há, nem deve haver lugar para as vinganças e quezílias pessoais.

Uma Vuelta que mostrou um Guillaume Martin muito combativo, um Sam Benett de novo muito competitivo, já o tinha sido no Tour, e uma surpresa inesperada a de Hugh Carthy. Mas serviu também para mostrar a fragilidade de Chris Froome e da sua equipa, de Pinot que desapareceu cedo de cena, dando lugar a David Gaudu, um nome a ter em conta no futuro e que nomes como Dan Martin e Alejandro Valverde começam a estar já muito cansados.

No meio das provas por etapas, realce para os trunfos de Van der Poel no Bink Bank Tour, Dani Martinez no Dauphiné, Simon Yates no Tirreno Adriático e do alemão Schachmann da Bora no Paris-Nice, já alguém se lembra disso ?

2 thoughts on “Um balanço sobre a temporada World Tour”

  1. Não queremos denegrir a prestação de Dan Martin, o que quisemos dizer com a nossa opinião, e que o irlandês não será ciclista para vencer uma prova deste quilate, o que já não acontece com os três primeiros da Vuelta, por exemplo. Dan Martin é um bom ciclista, mas nunca será um ciclista que possa lutar por um lugar no pódio.

  2. Apenas um ponto de discórdia nesta (boa) análise: Dan Martin obteve a sua melhor classificação de sempre em Grandes Voltas. E isto sendo péssimo no CR (sempre foi). Portanto, em minha opinião, tomara a muito ciclista estar “cansado” como ele.

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