Como será o ciclismo de amanhã ?

?O que se temia há nove meses atrás sobre o futuro do ciclismo, parece cada vez mais ser uma dura realidade. Quando aqui se escreveu que «2021 será diferente para equipas, ciclistas e organizadores», não se pretendia um título sensacionalista, nem uma premonição de um qualquer bruxo. Os agentes ligados ao ciclismo sabiam que os efeitos colaterais de uma pandemia como esta e da forma como ela se instalou nas nossas vidas, daqui para a frente nada será como dantes, nem na nossa vida pessoal nem na profissional. Como estamos em fim de época, voltamos novamente ao tema, não para assustar ninguém, não vamos falar na forma de lidar com o Covid no ciclismo, mas sim tentar imaginar sobre o que poderá ser o ciclismo em 2021. Vamo-nos focar, talvez, nos três agentes do ciclismo que mais sofrerão na próxima época:

As equipas de 2020, nos vários escalões, sofrerão seguramente uma redução significativa no seu número. A pandemia parece não abrandar – bem pelo contrário – e os patrocinadores mais vulneráveis não vão querer arriscar. Nos escalões World Tour as exigências são enormes para obterem a licença, ou a renovarem. São vários os dossiers que têm que cumprir os cadernos de encargos e é exigida à equipa uma garantia bancária, que é por assim dizer o que realmente sela o compromisso entre a equipa e a UCI. Se a equipa não cumprir com tudo a que está obrigada, a menos que consiga acordos bilaterais aceites pela UCI, pode em último caso ser usada a garantia bancária e isso pode ser fatal para o futuro desse patrocinador em termos financeiros. Por isso é grande a responsabilidade da equipa e dos seus patrocinadores que dá uma certa credibilidade ao ciclismo e uma segurança financeira aos ciclistas e a todo o staff. A japonesa da NTT por exemplo, já fez saber que não continuará a patrocinar a licença sul-africana. O dinamarquês Bjarne Riis continua incansavelmente à procura de um novo patrocinador. Acredito que vá ter sucesso. Os números de espectadores a assistirem às transmissões, via televisão por cabo, subiram a um ritmo nunca visto este ano. O ciclismo é um bom negócio para uma empresa que se queira expandir a nível mundial e que tenha 100 milhões de euros para investir no seu arranque. Sobre dificuldades noutras equipas pouco se sabe, a não ser que a EF-Education First que se viu obrigada a reduzir os salários da equipa e staff, ofereceu mais um ano de contrato a quem terminaria este ano o vínculo. Um gesto motivador para quem muito lutou para continuar a levar aos ecrãs televisivos de todo o mundo o nome Education First. O «nosso» Ruben Guerreiro foi um deles e a equipa conseguiu 11 vitórias em etapas e uma vitória na Clássica Royal Bernard Drome ganha por Simon Clarke.

Os ciclistas com mais de 30 anos, acusaram muito o confinamento e não se conseguiram preparar convenientemente. Em vários países o atraso no confinamento em relação a outros, nomeadamente os sul-americanos, foram os mais afetados e pouco se viu dos colombianos, porto-riquenhos, equatorianos no Tour de França e no Giro. Só agora na Vuelta parecem estar um pouco melhor. Dos sprinters, Mark Cavendish da Bahrain/Mclaren não só não ganhou nenhuma etapa ou prova e o melhor resultado foi um 13º lugar no Saudi Tour e foi triste vê-lo em lagrimas no final da Gent-Wevelgen na Bélgica quando um repórter o abordou para lhe ouvir dizer que seria a sua última corrida. Não foi, correu a Scheldeprijs na semana seguinte e ficou em 143º lugar em 158 que terminaram. Depois seguiram-se mais duas provas na Bélgica não concluídas. Não deve arranjar equipa para 2021. É triste ver um ciclista que ganhou 146 vezes, sair desta maneira. Fala-se que a Deceuninck/Quick Step lhe vai oferecer um contrato, mas podem ser apenas rumores. André Greipel outro grande sprinter, também nada ganhou, mas tem contrato com a Israel Start-Up Nation até 2022. Viviani da Cofidis uma época sem vitórias pode ser má para o seu futuro. Entre outros. Quanto aos ciclistas de grandes provas, uma época sem vitórias de grandes nomes, entre eles: Froome, Thomas, Bardet, Landa, Avermaet, Pinot, Valverde, Dumoulin, Nibali, Pozzovivo e Aru. Ciclistas com um palmarés recheado de sucessos, uns mais do que outros, mas ciclistas pagos como estrelas de alto gabarito, mas que pouco ou nada digno de realce. O que será o futuro deles quando acabarem os seus contratos pode ser uma grande incógnita para o futuro da sua carreira . Com as equipas a terem que reduzir orçamentos, talvez seja reduzido o número mínimo de ciclistas para 25 em equipas World Teams, muitos ciclistas vão ter dificuldades em arranjar equipas. Creio até que muitos ciclistas bem tentaram dar nas vistas no Tour de France e no Giro, para conseguirem um contrato, mas em vez de se mostrarem fortes, as suas prestações foram tão medíocres que se tornaram fraquezas. A bússola das equipas vai mudar, de contratações de ciclistas com palmarés, mas já sem condições de nada ganharem, para jovens ciclistas ávidos de se mostrarem. Tivemos muitos este ano a mostrarem que é a eles que pertence o futuro. E ouvir Nibali dizer no Giro que não tinha condições para competir com estes novos ciclistas, muitos sub-23, foi por assim dizer o aceitar de uma nova realidade, sem lamentos, sem lágrimas. Um ciclista tem que saber sair com dignidade e não se andar a arrastar pelas provas.

Quanto aos organizadores de grandes provas, irão apresentar para 2021 um figurino não muito longe do que é habitual. Vão continuar a contar com as autarquias de cidades que sempre apostaram no ciclismo para promoverem o seu turismo. O ano de 2021 ainda é uma incógnita em termos de pandemia e a própria UCI vai demorar algum tempo a apresentar um calendário, porque não adianta aos organizadores das provas começarem um trabalho de colocar de pé uma prova, e mais tarde terem que as cancelarem. Muitos amantes do ciclismo pedem que se mudem trajetos, itinerários, se introduzam novas subidas ouse escalarem novas montanhas. O problema é que a oferta para partidas e chegadas em França, Itália e Espanha é bem mais numerosa do que as que existem em Portugal. Por isso as partidas e chegadas se repetem ano, após ano, nas mesmas cidades. Porque para um organizador de provas não é só meter uma ou outra chegada nova, é que para que isso aconteça tem que haver uma autarquia que pague essa chegada. Os tempos de agora não são para esbanjar recursos financeiros, são para os manterem ou se possível reduzir. Vamos ter paciência e aguardar por melhores dias, porque em boa verdade não sabemos o futuro da modalidade.

Jorge Garcia