Piano, piano…

Piano, piano, o Giro lá chegou a Milão. Foi preciso trabalho, muito trabalho, ideias e sacrifícios que nem sequer imaginamos pela parte da organização. Mesmo em organizações habituadas a grandes eventos, os tempos que correm tornam tudo o que se pretende fazer numa montanha bem maior do que o Stelvio.

Acima de tudo terá sido preciso muito sangue frio e alguma paz de espírito, nomeadamente, quando foram alguns dos agentes do ciclismo, aqueles que tentaram fazer com que o Giro não chegasse a Milão.

Com calma, chegaram a Milão. E o esforço teve o seu prémio. Uma das grandes voltas mais emocionantes dos últimos anos, talvez, uma das mais emocionantes de sempre. O Giro sempre foi uma prova pródiga em grandes telenovelas, mas seria difícil pedir melhor, sobretudo, num ano que tinha tudo para tornar a prova em algo fastidioso.

Para nós, portugueses, foi a melhor das telenovelas, com vários episódios de emocionante sucesso. A construção de uma história, só ao alcance das grandes provas por etapas. Um país a torcer pelo ciclismo.

Talvez fosse oportuno, verdadeiramente aproveitar o embalo. Por estes dias todos se sentiram compelidos a estar com o João e o Ruben. Foram redes sociais, foi a imprensa, foram as televisões, foram os políticos, foram outras modalidades. Contudo, sem grande inocência, sabemos que regressaremos ao antigo normal.

Mesmo assim, estes dias, podem e devem ser aproveitados. O ciclismo continua, de facto, a ser uma modalidade acarinhada em Portugal e a suscitar interesse. O interesse óbvio nesse aproveitamento depende essencialmente das gentes do ciclismo, mormente da Federação.

Mas também os órgãos de comunicação social, dos desportivos, aos genéricos, têm aqui a visão do que pode ser variar o tipo de informação que pretendem dar, com utilidade, sem perder interesse comercial. Porque a disponibilidade do leitor/telespectador também se provoca.

E também talvez fosse tempo das mais altas autoridades do Estado começarem a olhar para o fenómeno desportivo de uma forma mais abrangente e dando-lhe, em permanência, a importância que tem na vida de cada sociedade.

Isto, desde sempre. É pura História. Embora as Universidades estejam cheias de intelectuais com pouca destreza física e ainda pior destreza intelectual, que acham que a salvação das sociedades só tem o caminho da cartilha. Enfim, já o dizia o grande Eça de Queiroz, e ainda continuamos uns atados.

Piano, piano o Giro chegou a Milão. Mas estes acontecimentos são um móbil para piano, piano começarmos a mudar a mentalidade desportiva (e de saúde – mais importante do que qualquer confinamento!) dos portugueses.
Luís Gonçalves