Há coisas más no ciclismo ?

No Outono caem as folhas, é o fim de uma geração e o início de uma outra. O ciclismo começa, a meu ver, a ser um espetáculo desportivo com uma dimensão nunca vista. Porque tem emoção, porque têm atletas com grande capacidade física, e porque os atletas não têm na sua cabeça a única missão de mostrar os patrocinadores nas camisolas, carregam também as suas origens, o seu país. E João Almeida tem 10 milhões de portugueses a torcer por ele. E o tempo são dos jovens e não está a acontecer Outono, mas sim uma Primavera desportiva que vai acabar em 8 de novembro com muitos ciclistas abaixo dos 23 anos, a florirem precocemente.

As alterações climáticas terão influência na evolução do ser humano? Não somos cientistas, nem antropólogos, nem aquilo que acabo de escrever é suportada por qualquer estudo científico. Nem precisamos. Para sabermos a razão porque é que atletas tão jovens conseguem melhores performances do que os mais velhos, são facilmente argumentados.

Hoje em dia os níveis físicos dos atletas abaixo dos 23 anos são superiores aos que eram há 10 anos. Há um sem número de explicações que nos podem ser dadas, por quem está a acompanhar os escalões de formação. Não é o meu caso. Mas sei que o nível de equipamentos melhorou, os treinos são monitorizados envolvendo novas tecnologias e ao nível da alimentação, os ciclistas são orientados por especialistas em nutrição. Os jovens ciclistas de hoje têm um corpo mais bem preparado para níveis de esforço superiores aos de ontem. Os de ontem eram mais fortes. Os de hoje mais poderosos. Podem querer dizer a mesma coisa. Mas as palavras usadas têm significados diferentes.

Há pouco dei o mote para a essência deste artigo, um ciclista não leva só colada ao corpo a camisola da sua equipa, do seu patrocinador, leva na cabeça também, enquanto pedala, um sem número de coisas a pensar: pensa na família, pensa no que vai fazer, logo termine a prova, para onde vai levar a familiar a passar uns dias depois de uma grande prova, no que se vai escrever sobre ele nas redes sociais e para aqueles que estarão a uns metros de vencer, qual a melhor pose para a capa do jornal no dia seguinte.

Um ciclista de alta competição tem dois amores: o patrocinador que lhe paga o ordenado e o país que o motiva a correr. E é o perigo dos nacionalismos que importa combater. Se no futebol há as claques que se digladiam aonde quer se seja, e em que condições as fazem; tornam o futebol violento, dentro e fora dos estádios. O ciclismo, pelo cada vez maior número de adeptos, começa a ter comportamentos tóxicos. Não só na estrada, como sabemos, mas noutros lugares. Basta assistir a uma prova para vermos os perigos que os ciclistas estão sujeitos. E os perigosos tiffosis não o são porque os atletas representam uma Efapel, uma empresa fabril de componentes elétricos, mas sim porque são oriundos de um país ou de uma localidade.

E é o país que idolatra os atletas, nas estradas e nas redes sociais – o outro mundo onde milhares dividem a sua vida real e virtual e as confundem. Para estes das redes sociais só há um herói, o seu e mais nenhum. Os outros são inimigos a combater. Ontem, dei conta de um mau exemplo da forma de como se usam mal as redes socias. Chamo a vossa atenção para a imagem retirada do Twitter:

Um fã de Remco Evenepoel faz uma montagem de uma virtual classificação geral da 14ª e retira o João Almeida do topo da classificação e coloca o belga a liderar «a verdadeira classificação Geral do Giro de Itália» saído da cabeça deste adepto. E depois, a coisa ainda tende a piorar com o colega de João Almeida a interagir com esta situação, com uns emojis de umas gargalhadas de ir às lágrimas. Onde está o respeito de Remco pelo colega? Bastava ignorar aquele tweet para que isso fosse um gesto de reprovação. Mas não. Aquele tweet foi a maior falta de respeito para o João Almeida e que só tenho uma palavra para descrever o que me veio à cabeça: xenofobia. Do francês e do belga. Muito mau este exemplo. Não podia deixar passar em claro este mau exemplo.

O outro caso grave do dia, o choque entre Julian Alaphilippe e uma mota de um comissario na Volta à Flandres de hoje, quando o francês ía em fuga na companhia de Wout van Aert e Mathieu van der Poel. Para quem não viu, o francês chocou com a traseira de uma moto de um suposto comissário parado no lado em que os ciclistas sempre seguem: à sua direita na estrada. E pergunto: porque razão o comissário não parou no lado contrário dos ciclistas? Pode Alaphilippe se ter distraído com qualquer coisa, mas que raio, porque é que as motas passam a vida a atrapalhar os ciclistas? Um dia destes a vítima foi Elia Viviani no Giro… Isto tem que acabar. É gente a mais na estrada.

O fim da época tem sido stressante, eu sei, cheia de quedas inexplicáveis, o temor do Covid, as montanhas com neve que se calhar não vão ser ultrapassadas, os que querem que o Giro acabe, as asneiras nas redes sociais apreciadas pelos ciclistas, e muito mais, são momentos épicos misturados com asneiras, este ano. Não queremos que a época termine, mas é um ano para esquecer, lá isso é. Ou se calhar não, basta uma vitória no Giro de um jovem português de A-dos Francos!

Jorge Garcia

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