Ineos – do céu ao inferno ?

A Sky, o céu, começou a ganhar forma em 2009. Sir David (Dave) Brailsford iniciou nesse ano conversações com a British Sky Broadcasting com vista à criação de uma equipa de ciclismo profissional, patrocinada pela televisão por cabo inglesa. A Team Sky é criada e solicita uma licença ProTream à UCI para 2010 que lhe foi concedida. Inscreve 27 ciclistas de várias nacionalidades, entre os quais: Bradley Wiggins, Chris Froome, Geraint Thomas, Boasson Hagen, estes os mais conhecidos e ainda, Juan António Flecha (agora comentador na Eurosport) e do malogrado Nicolas Portal, o francês que viria a tornar-se Diretor Desportivo da equipa e falecido em março de 2020. Ou ainda Serge Pauwels (CCC), Ben Swift (Ineos), Ian Stannard (Ineos), todos estes ainda no ativo, dez anos depois.

A primeira vitória individual (não na estrada) num dos três grandes Tours, foi protagonizada por Cris Froome na Volta a Espanha de 2011 que acabou em 2º atrás de Juan José Cobo na altura a correr com a camisola da Geox/TMC Transformers que foi desclassificado pela UCI posteriormente por uso de doping e suspenso apenas em 2019 pela UCI. Com essa desclassificação foi declarado vencedor Chris Froome.

No ano seguinte, 2012, Bradley Wiggins venceu o Tour de France. E começam as polémicas em torno da equipa Sky e dos seus ciclistas. O Departementl of Culture, Media & Sport, agência governamental inglesa que investigou o ciclista e a equipa após denuncias de que o ciclista inglês tinha usado corticosteroides que segundo a agência serviriam para melhorar o rendimento do atleta. E ainda descobriram que o ciclista da Sky tinha recebido um envelope misterioso no Dauphiné de 2011. Ao certo o ciclista não estava autorizado a consumir aquele corticoide proibido. Do seu curriculum constam ainda cinco medalhas de ouro, uma de prata e duas de bronze em Jogos Olímpicos, na disciplina de pista e contrarrelógio e de outra de ouro no CRI de 2014 em Ponferrada nos Mundias de Estrada da UCI. Abandonou aos 35 anos com o título de Sir que lhe foi atribuído pela Rainha de Inglaterra após o nomear cavaleiro em 2013 pelas conquistas da medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres e da vitória no Tour.

Os sucessos da Sky em grandes provas continua, com as vitórias consecutivas de Chris Froome nos Tours de 2013, 2015, 2016 e 2017. Em 2014 não venceu o Tour de France por causa de uma queda na 5ª etapa. Chris Froome venceu ainda a Volta a Espanha em 2017 e o Giro de 2018 enquanto o seu colega de equipa Geraint Thomas vencia o Tour de 2018. A Sky dominava todas as provas em que participava exercendo um poderio na cabeça do pelotão, controlando as provas a seu bel prazer. Mas eis que em 2017 cai uma bomba sobre a Sky e Chris Froome, após a Volta a Espanha onde tinha acabado de vencer. Tinha sido acusado de doping, por acusar no sangue níveis acima do permitido de salbutamol, um broncodilatador. O atleta e a equipa Sky recorrem da decisão, com a contratação de advogados de grande renome mundial que conseguiram convencer a UCI a proceder ao arquivamento do procedimento disciplinar. Mais uma vez se adensavam as suspeitas de consumo de substâncias proibidas ou procedimentos antidesportivos por parte dos ciclistas da Sky. E se calhar por via dessas pressões e suspeitas a Sky anuncia a sua retirada de patrocínio à equipa, no final de 2019.

Dave Brailsford inicia a procura de um novo patrocinador, capaz de investir os milhões de euros anuais, onde se fala de mais de 50 milhões. Não era fácil arranjar um patrocinador capaz de investir tamanha verba. Mas demorou poucos meses para que fosse anunciado o novo patrocinador da equipa: a Ineos.

A gigante inglesa Ineos está ligada à petroquímica, petróleo e gás e de consumo e está também presente no ramo automóvel e ao negócio da higienização. Em 2020 a empresa decide lançar o Grenadier, um 4X4 que promete fazer furor nas estradas. Mas com a pandemia deste ano o lançamento da viatura tem sido adiado. A maldição do Covid19 atinge por completo a equipa este ano. As únicas vitorias da equipa foram conquistadas por Ethan Hayter no Giro dell´Appeninno uma prova com classe 1.1 e a vitória de Egan Bernal na Route d´Occitanie de classe 2.1, a mesma da Volta a Portugal, uma prova com apenas 4 etapas em Agosto. A maldição da Ineos em 2020 começou verdadeiramente no Critérium do Dauphiné de 12 a 16 de agosto com uma equipa fortíssima: Egan Bernal, Chris Froome, Geraint Thomas, Michal Kwiatkowski, Pavel Sivakov, Jonathan Castroviejo e Dylan van Baarle. No final Bernal fez 3º, Thomas 26º, Kwiatkowski 32º, Sivakov 47º, Froome 86º, Castroviejo 87º e van Baarle 130º. Uma prova muito mal conseguida pela equipa, mostrando uma má preparação por parte de todos os ciclistas da Ineos e que acabou por ser um mau presságio para o Tour. E no Tour de France parece ter sido o canto do cisne para a equipa britânica. Não levou Froome nem Thomas, escalando o galês para o Giro e o Sul Africano para a Vuelta. Para o Tour a equipa enviou para ajudar o jovem colombiano Egan Bernal o vencedor do Giro do ano passado, Richard Carapaz, o russo Pavel Sivakov, uma jovem promessa de 23 anos, Andrey Amador também chegado este ano à Ineos após polemica com a saída deste da Movistar e o experiente polaco Michal Kwiatkowski. E foi deste último, o único sinal de que a Ineos estava a participar no Tour, vencendo a 18ª etapa junto com o seu companheiro Richard Carapaz, como que a salvar a honra do convento, após o estouro monumental de Bernal na etapa 16 no Col de Villard-de-Lans.

No final do Tour a equipa ficou num modesto 5º lugar a 1:26:17h. Para uma equipa que gasta 10 milhões de euros numa prova é muito pouco. Diria desastroso. O que já se sabe para já no Giro deste ano, é que Thomas abandonou após uma queda na 3ª etapa e que Filippo Ganna ganhou duas etapas, o CRI e a 5ª etapa após ter perdido 19 minutos na ajuda a Thomas. E do resto da equipa no Giro o melhor posicionado é Tao Geoghegan Hart em 19º a 3:18m do nosso João Almeida.

É o declínio de uma equipa que fez história? Um caso estranho este.

Jorge Garcia