A serra do vento

Joaquim Agostinho, em representação do Sporting-Gazcidla, foi o primeiro vencedor na Torre, local onde chegou, pela primeira vez, a Volta a Portugal, em 1971.

Num ano em que envergou de amarelo do primeiro ao último dia, com a chegada a um estádio de Alvalade a abarrotar de gente, ainda na serra da Estrela, depois de cedo se desenvencilhar do pelotão, Agostinho iniciou o seu percurso solitário montanha acima, naquela pedalada pesada de então e ainda mais pesada nas pernas do ciclista da zona Oeste. Foi no meio de uma séria multidão, sem barreiras, que inaugurou as chegadas à Torre, com larga vantagem sobre os mais directos perseguidores e consolidando ainda mais a sua liderança na prova.

Hoje, a etapa foi obviamente diferente. Um ciclismo mais calculado, em que o vento também foi factor dissuasor de qualquer tentativa mais radical no grupo onde seguiam os favoritos à vitória final. Foi sempre um grupo dianteiro com bastante gente, seguindo no compasso de João Rodrigues (W52-FCPorto) que foi resistindo a todas as investidas, sobretudo as vindas de António Carvalho (Efapel) que, com mais ou menos vontade, sempre pareceu o mais inconformado do grupo.

Só no fim, bem longe do ciclismo de 1971, o que é normal, as escaramuças do costume com o prémio a sorrir a Joni Brandão (Efapel). Ganhou alguns segundos, mas porventura mais importante terá sido vencer na Torre.
Não estamos em cima da bicicleta. Lá, na estrada, as coisas são bem diferentes. Mas também não podemos esconder uma certa decepção com esta etapa. Esperava-se mais de Benta (RP-Boavista), Figueiredo (Atum General-Tavira) e, apesar da vitória, até de Joni Brandão. Mas conforme também já foi dito o vento levou com ele alguma hipótese de muita emoção.
O terreno agora vai gradualmente mudar e o que se avizinha acaba por favorecer o W52. O ritmo na serra até deve ter sido duro, mas essencialmente constante, bom para quem tem quarenta anos.

De qualquer forma ainda há muito que pedalar. E, às vezes, de uma etapa que no papel nos parece enfadonha, surgem grandes surpresas.
Ah, e Luís Gomes (Kelly-Simoldes-udo) e Hugo Nunes (RP-Boavista) continuam a sua senda, e bem, nas classificações secundárias imediatas à camisola amarela.
Luís Gonçalves