As folhas caídas e o burro

Em 2006, o russo Vladimir Efimkin confirmava a vitória na Volta a Portugal, na última etapa, num CRI, em Viseu. Então desconhecido, protagonista de uma célebre fuga que terminou com alguma vantagem no Fundão, à terceira etapa, deixou em segundo nessa Volta o herói popular de então, Cândido Barbosa.

Uma cidade de Viseu diferente. Desde logo porque era Agosto. Mais do que isso porque foi o célebre ano das bandeiras nacionais lançadas no apoio a Cândido Barbosa, numa ideia que tinha sido motivada no Euro 2004, por Scolari. Verdadeiras multidões no apoio aos ciclistas. No dia anterior, em São João da Madeira, à entrada da recta da meta, não havia ciclista que conseguisse ver o “pano” de meta.

Hoje, na mesma cidade de Viseu, algum apoio na rotunda que antecede a recta da meta a que se seguia uma longa, muito longa estrada despida de público. Merecia mais o esforço do jovem ciclista da Caja Rural.

No mesmo dia em que os ciclistas pareceram estar a correr uma clássica e não uma prova por etapas. O percurso era duro e sinuoso, mas a vontade do pelotão o fazer ainda mais selectivo prevaleceu. Depois da Fleche Wallone, hoje pareceu mesmo o dia das clássicas. Ou então, aquela forma clássica e romântica, já em desuso, de correr provas por etapas. Aquela forma em que os ciclistas vão chegando a conta gotas e em que se fazem fugas, que nos ficam na retina, para a vitória. Nem as tácticas antigas faltaram, como atacar na zona de abastecimento.

As folhas caídas na recta da meta, pouco habituais, no mesmo local, em Agosto, fizeram lembrar a “Clássica das folhas caídas”, na Lombardia. E os ciclistas não desmereceram o título. Um Sol diferente, num ambiente diferente, que claramente merecia outro enquadramento popular a aclamar o esforço do jovem Oier Lazkano.

Com mais ou menos brilho a Volta lá segue o seu rumo. E isso até é o mais importante. Mas, não sei bem para onde caminhamos. Não só no desporto. Partilho pessoalmente. Em apenas duas semanas de aulas, no ensino básico, 1º ciclo, a minha filha mais velha já vai no terceiro professor! Duas semanas, de desentendimentos do sistema, de medidas políticas e de saúde cegas e que, elas sim, acabam por provocar o medo exagerado. Sobretudo, porque o que vemos, é que só com proibições e sem soluções estamos de facto ao sabor da corrente.

E de más correntes. Voltando ao ciclismo, é óbvio que foi bem pior juntar toda a gente no início da Sra da Graça, do que deixar espalhar a malta (que não eram assim tantos) por oito quilómetro de subida… com duas bermas. Ou é óbvio, ou sou eu que sou estúpido. Ou por outra, já que falámos do Scolari, e sem querer ofender o animal, “o burro sou eu?!”.
Luís Gonçalves