Um país com várias versões

Hoje ao ver um vídeo na sua edição digital de um jornal diário que fez uma reportagem em Mondim de Basto, um pouco antes de passarem os ciclistas, procurou a opinião sobre meia dúzia de amantes da prova habitués, que lamentavam o excesso de zelo e o rigor que as autoridades colocaram para que não pudessem assistir à etapa no local que mais gostavam. Muitos já lá vão à dezenas de anos. Eu entendo perfeitamente essa frustação e também me pergunto que risco podiam provocar cerca de 300 ou 400 pessoas que estavam em Mondim de Basto para assistires a uma das mais icónicas etapas da prova. Esta etapa só não diz nada a quem nunca lá foi. Eu já lá fui e estive a incentivar os ciclistas e sei que isso para ele é fuel, é gas.

Ver aquelas encostas despidas de gente, foi tão desolador como ver de baixo para cima o Monte Farinha sem cor verde. Acho que etapa podia ter sido mais espetacular se tivesse público. Os ciclistas sentiram essa ausência. Quem estava a assistir à prova pela televisão sentiu essa má sensação, por parte dos nossos heróis. Uso sempre a frase que o publico é o sal e a pimenta do ciclismo. Sei que não escrevo nada de original. Mas escrever algo de original sobre ciclismo não precisa de ultrapassar os adjectivos acabados em «ões»: emoções, sensações, paixões, desilusões.

Hoje não senti nada disso. Aqueles últimos 7 Kms de subida foram os mais frios que até me arrepiavam. Frederico e Amaro subiam sem garra sem o sangue a ferver. Pareciam ciclistas de cera.

Eu sei que não se pode ter «sol na eira e chuva no nabal» e que os tempos são de rara exceção. Sei que esta prova só foi possível porque a FPC aceitou as condições da DGS e conseguiu o milagre de termos mais uma Volta a Portugal, numa altura em que ninguém acreditava. Já agradeci a todos. Mas por favor, não exagerem. Aquelas 400 pessoas que estavam confinadas a 13 quilometros da chegada estavam em maior segurança em termos sanitários lá mais para cima, porque tinham espaço mais do que suficiente para não estarem uns em cima dos outros.

Isto era qualquer coisa que qualquer autoridade pudesse perceber.

Jorge Garcia