Dia de Mestre … e os grilos!

O dia de hoje foi sem dúvida de Ricardo Mestre (W52-FCPorto). Uma etapa notável de um verdadeiro trabalhador de equipa a que se soma a substância de já ter vencido a Volta a Portugal.
Mas também não deixou de ser um dia de mestre, em táctica, com a teia do costume. A receita do W52 já é conhecida, mas continua a ser eficaz. Naturalmente que a responsabilidade de fugir a essa teia do costume incide, sobretudo, nos ombros da Efapel, em Portugal, a equipa que consegue ombrear de facto com a W52 e que, no fundo, até tem essa obrigação.
Ninguém sabe o que é dito do carro, na noite anterior, ou essencialmente de manhã, antes da partida para a etapa. E tantas vezes o que os directores dizem não se reflecte na estrada.
Desconhecemos o que estaria previsto pela Efapel, mas, o que se viu, foi um facilitismo demasiadamente grande, por exemplo, na saída do Amaro Antunes (W52) e do Frederico Figueiredo (Atum General/Tavira) ainda na subida do Barreiro. Claro, também não sabemos qual seria a capacidade física do Joni Brandão ou do António Carvalho, naquele momento. Sabemos porém que o Joni Brandão esteve vezes a mais mal colocado e também sabemos que qualquer ciclista Junior já sabe que naquele momento não podem sair, sozinhos, e um deles ainda por cima com um colega de luxo na frente, dois ciclistas daquele valor. E já não é momento único.
É verdade que todos querem a amarela, mas o Atum General/Tavira até acabou por ficar numa posição confortável. Palavra ainda para a forma de correr da RP-Boavista. Com as armas que tem, uma etapa de ataque sobre ataque que vem nos manuais de ciclismo, daqueles que ainda não falam de Watts e que acabou por render o terceiro lugar na etapa ao João Benta e uma boa presença na geral.
Finalmente, os grilos. Ontem quando via a transmissão do jogo de futebol entre a equipa que diz que é o Belenenses e o Famalicão, algo inédito acabou por suceder. Durante o jogo, entre os comentários, ouviam-se os grilos. Bem sabemos que a mata do Jamor é aprazível, mas ouvir grilos durante um jogo de futebol…
No ciclismo não se ouvem os grilos, a não ser quando há uns anos o italiano Paride Grillo vencia as etapas. Mas há um silêncio estranho no decurso desta Volta a Portugal, sobretudo quando visitada ao vivo por quem estava habituado a outro mundo. Um mundo a que até poderíamos chamar normal na Volta ao Alentejo, por exemplo, mas nunca na Volta a Portugal. O desporto sem público não é normal. E o panorama desportivo sem público avizinha-se negro. Para além da questão sanitária, também será bom reflectir sobre isso. Os grilos são um bicho simpático e assim deverão continuar a ser.
Luís Gonçalves