Lembrar o Delmino, e não esquecer o Henrique Castro

Comecei hoje a 42ª participação na Volta a Portugal, a única sem numeração, mas devo confessar que talvez seja aquela em que sinto o maior orgulho em participar.

Primeiro, tal como muitos portugueses, tinha a esperança que se viesse a realizar, mas tive algum receio que, à última hora, pudesse encalhar num mau porto, de onde não conseguisse dar à costa. Por isso, hoje em Fafe, quando cumprimentei o Delmino Pereira senti uma grande emoção, não só pela ligação afetiva, por vezes muito acesa e discutida, que nutro pelo antigo ciclista, mas sobretudo, neste momento, por aquilo que lutou para que a prova fosse uma realidade. A Volta está na estrada, e muito se deve à sua teimosia, ao seu querer de levar para a frente um evento, que é tão do agrado de muitos portugueses.

No intimo, o Delmino fez-me lembrar um antigo presidente que está recatado em Pero Pinheiro, uma povoação perto de Sintra, que com muitas limitações conseguiu nos anos 90 colocar o ciclismo no mapa, como uma das maiores modalidades do nosso país. Chamava-se Henrique Castro, foi na sua égide que o JN entrou para o ciclismo, foram nos seus mandatos, que o ciclismo profissional no nosso país atingiu o estrelato, com mais de 100 dias de corrida/ano. Hoje, poucos se lembrarão dele. Aqui, na Volta, ainda anda um seu companheiro de direção daqueles tempos, o José Calado, e nós que andamos por cá, não esquecemos, nem devemos esquecer aqueles que ajudaram a construir o ciclismo dos nossos dias.

Henrique Castro.

Homem simples, sem vaidade, Henrique Castro soube granjear simpatias, batendo porta a porta, para arranjar grandes e pequenos patrocínios, num estilo que, na sua época, me faz lembrar agora o atual presidente da Federação.

Para terminar, uma história curta do Henrique Castro, era ele diretor de corrida , equivalente hoje em dia ao pomposo título de Presidente do Colégio de Comissários e pedi-lhe autorização para ir ao pelotão falar com um ciclista da equipa, e não fui autorizado. Passados uns momentos fui outra vez pedir autorização , então pelo Radio Volta, o Henrique com o seu sotaque de todos conhecido , veio a resposta : “ Oh sr. diretor as táticas são no balneário”.