Simplesmente Volta a Portugal

As gentes do ciclismo estão habituadas a dificuldades e a ultrapassá-las. É essencialmente nessa dureza da profissão de ser corredor de bicicleta e na tenacidade de ultrapassar dificuldades que o povo, que somos todos nós, se revê.

Em 26 de Abril de 1927, um grupo de 38 corredores, juntava-se, em Lisboa, pelo Marquês de Pombal, rumava ao Cais do Sodré, onde embarcaria para Cacilhas, local da partida real, não para a Volta a Portugal, como hoje todos a conhecemos, mas para o Circuito Ciclista de Portugal. Algo que normalmente nos escapa, mas que nos evidencia que, com o tempo, a Volta a Portugal, tornou-se magnânima, independente de qualquer outra denominação especial ou edição. Para todos, é pura e simplesmente, a Volta a Portugal em bicicleta.

Ora, em 1927, sob o saudável patrocínio do Ovomaltine, que se fartou de distribuir refeições da bebida pelo país inteiro, os corredores preparavam-se para enfrentar um país, que proporcionava etapas tantas vezes sem estrada, a troco de muito pouco ou mesmo nada. Eram divididos entre fortes e fracos, mas, pelo que se sabe agora, fracos, só se fosse na realidade de então. Por mim foram todos fortes.

Os custos da primeira edição, mesmo sem policiamento, acabaram por ser avultados. Houve que repensar a questão, recuperar algum fôlego, e sem desistir, lá vem a segunda edição, já em 1931, com as primeiras grandes disputas entre Trindade e Nicolau e, por inerência, entre o Sporting e o Benfica.

Aliás, os próprios prémios que iam dando nas terras por onde passavam os corredores, ao longo das primeiras edições, reflectiam essas diferenças. Era comum discriminarem o prémio tal para o primeiro do Benfica, ou outro para o primeiro do Sporting, aquele para o primeiro do Campo de Ourique, e por aí fora. Prémios luxuosos. Uma calçadeira, um tinteiro, um presunto, uma inusitada cigarreira, ou uma garrafa de vinho.

Normalmente a garrafa de vinho era para o último. Há até um ciclista que durante algumas etapas era sempre último. Enfim, os outros começaram a achar estranho e descobriram o caso. As populações sempre admiraram o sacrifício do último e, com frequência e com alguma piedade, brindavam-no com presuntos, paios, pão e vinho. Claro, em tempos de pouca abundância, começou a acesa luta pelo último lugar!

Passaram-se guerras, passaram-se revoluções e a Volta, voltou sempre. Não pode deixar de ser de outra maneira. O ciclismo é assim. As dificuldades dos primeiros tempos, espelhadas agora até com alguma caricatura, só nos vêm lembrar que antes de nós sempre existiu gente que nunca baixou os braços e tem de ser também por eles que não devemos perder a tenacidade.

O impacto social da Volta a Portugal, começou bem lá para trás, no princípio do século passado. Numa longa história de dificuldades ultrapassadas. Daquelas histórias sinceras que o justo povo, que somos todos nós, adora.
Luís Gonçalves