Saúde-se a Volta

Não é difícil passar do Tour para a nossa Volta, aquela de que tanto precisamos para a subsistência do ciclismo nacional. Essa passagem, não propriamente para a Volta, mas para Portugal, é atenuada por, nos cinco primeiros classificados desta edição do Tour, estarem quatro vencedores de competições portuguesas, três no Algarve e um no Alentejo, provavelmente, naquelas que terão sido as sua primeiras grandes vitórias internacionais.

Aproxima-se uma Volta a Portugal que, à partida, parece diferente. E é diferente. Não por se chamar de edição especial, isso vai acabar por se diluir com o tempo, e ficará apenas na memória dos mais ferrenhos adeptos da modalidade, mas desde logo por todo o controlo sanitário a que toda a caravana é permanentemente sujeita. Esta semana, dizia-me um director desportivo que só nos últimos dois meses tinha feito quase vinte vezes o teste covid, como membro do staff, com custos próprios ou para a equipa.
Mas, como já aqui foi dito, se há desporto habituado a cumprir normas e a realizar testes é o ciclismo. Nesse aspecto, a nossa Volta, e o ciclismo, têm rodas para andar. E o que todos desejamos é que as rodas nos levem de Fafe a Lisboa sem grandes sobressaltos pelo meio.

No contexto, será importante sensibilizar algumas autoridades, algumas cada vez mais perdidas no seu limitado mundo, para a importância económica e social da Volta a Portugal e do desporto no seu todo, da formação aos profissionais, com real impacto, desde sempre, na saúde dos países. Queremos ir de Fafe a Lisboa, sem paragens em estações e apeadeiros, que não sejam as já previstas.

É, no entanto, o palco uma coisa terrível. E uma prova com transmissão na televisão e cobertura noticiosa da imprensa é apetecível para quem gosta de palco. Tantas vezes isso, apenas o palco e os holofotes, que podem permitir o próximo salto político ou, contrariar os políticos do poder. Pouco de saúde e muito de política.

Bem, tentemos esquecer isto tudo. O esforço de toda a comunidade do ciclismo tem sido grande para que tudo corra bem. Será bom pensar apenas na Volta e no ciclismo, nos ciclistas, nas etapas, num público que se espera cumpridor, numa Volta mais curta em que é preciso começar muito bem.
Esta Volta até pode ser um marco histórico. Um pouco como terá sido este Tour. Haja apoio dos mais altos representantes da nação, como existiu em França. Não estamos na França, não estamos no Tour, é a nossa Volta, é à nossa escala, mas o apoio terá de ser mesmo. Porque por nós, ciclismo, com imenso esforço, há muito que fazemos tudo da maneira certa. E é um esforço que merece consideração e respeito.
Luís Gonçalves