O que é uma equipa

Antes de mais, chegámos a Paris. Contra as expectativas de muitos e o desejo de alguns. Enfim, com um ou outro exagero, mas, tendencialmente, no cumprimento das normas. Aliás, se há desporto que está habituado a cumprir normas de controlo é o ciclismo.

E, em Paris, Pogacar (quase) tudo levou. Estava por Castelo de Vide, nos nacionais de CRI (Juniores e Cadetes), portanto, ocupado para ver o CRI do Tour, quando, no final da azáfama, me dizem que o esloveno (mais novo) tinha ganho o CRI e o Tour, com uma diferença de tempo considerável.
Não esconderei que fiquei um pouco surpreendido, sobretudo com o colapso de Roglic. No rescaldo da notícia diz um dos jovens presentes: “Pronto, está provado que é possível ganhar o Tour sem equipa!”. A minha resposta foi pronta: “ninguém ganha o Tour sem equipa”.

Costumamos ter uma visão limitada do que é uma equipa e dos momentos em que a equipa está presente. É verdade que a Emirates não é a Jumbo, pelo menos na presença constante nos momentos mais visíveis da corrida. E é normalmente essa visibilidade que nos salta à vista. Mas mais de metade do trabalho de uma equipa é completamente invisível às massas e começa bem antes da corrida.

Nos momentos mais visíveis, Pogacar ficava sempre um pouco abandonado, quando Roglic ainda tinha mais de meia equipa com ele. Isso é importante. Qualquer problema que o líder tenha é muito mais eficazmente resolvido, por exemplo. Num momento destes é sempre preferível ter colegas por perto. Neste contexto, Pogacar acabou por ter a sua estrelinha da sorte. Embora às vezes também tenhamos de fazer por ela, como Porte, quando furou no piso de terra batida.

Mas nos momentos aparentemente invisíveis, por certo que Pogacar, em bem mais de metade de cada etapa, tinha os seus colegas dispostos a ajudá-lo, em pequenos pormenores, mas que tantas vezes são decisivos mais à frente na etapa, nos momentos mais visíveis.

Também não duvidamos que Pogacar foi bem aconselhado. Correu como tinha de correr. Obviamente que no seu contexto, assumir uma liderança da prova tinha sido um tiro no pé da equipa. Foi o lobo em pele de cordeiro, que esperou pelo momento certo.

E, também não duvidamos que toda a estrutura da Emirates (que é vasta) esteve sempre irrepreensível com Pogacar e todos os outros ciclistas da equipa. Meus amigos, se o mecânico for fraco, é muito mais difícil vencer o Tour! Se os responsáveis pelos abastecimentos falham, lá se vão as reservas de energia.

Uma equipa, é tudo isto, e muito mais. Em 2017, Rigoberto Uran, quase que conseguia fazer valer a falaciosa teoria da falta de equipa. Mas deu de caras com um Froome, que não falhou.

Se falamos de equipa contabilizando toda a estrutura, como ficará a Jumbo-Visma? O golpe é duro. É um daqueles golos que nos tiram o campeonato já no período de descontos. Não me parece que a Jumbo tenha corrido mal. Optando por um líder incontestado, a fórmula terá de ser esta. Será fácil agora dizer que alguns ciclistas podiam ter tido outro papel, mas, com esta fórmula, a corrida tinha de ir sendo levada assim. E, ninguém esperaria aquele dia no CRI.

Porém, que mossa deixará o golpe, numa equipa, com vencedores de grandes voltas e três ciclistas que já fizeram pódio no Tour. A tendência, para o ano, ou já este ano, será apostar de novo em Roglic. Mas para quem controla o pelotão, e até para os que ficam em casa, fica agora a pulga atrás da orelha.

Porque, imagine-se que viramos o bico ao prego. Se para alguns Pogacar venceu sem equipa, na mesma linha de ideias, esses mesmos, terão de pensar que Roglic nem com uma super equipa venceu. Pensamentos redutores? Obviamente que sim.
Luís Gonçalves