Au revoir, Paris !

Tadej Pojacar, o esloveno mais famoso da atualidade, que hoje comemora os seus 22 anos, disse ontem depois da vencer o 107º Tour, que não ligava muito aos aniversários, naquela forma calma e humilde de estar, mas que nada tem a ver com a forma como compete, com as cores da UEA, acutilante e vitorioso quando tem uma tarja de meta no horizonte.

Provavelmente hoje andará de mão dada por Paris com Urska Zigart, sua namorada e também ela ciclista da Alé BTC Ljubljana, a equipa de licença italiana de World Team Feminina e com a sua mãe Marjeta e o pai Mirko, e um grupo numeroso de amigos que ontem marcaram presença na consagração nos Champs Élysées e que Tadej lhes dedicou a devida atenção no podium, com aquele sorriso de jovem no olhar e um corpo de super-homem. O primeiro ramo de flores, de cor branco ofereceu à mãe, uma professora de francês, discreta, que só tinha olhos para Tadej e não parava de o filmar com o smartphone em todos os momentos em que ele subia ao Podium. O ramo de flores de cor amarela foi decerto para Urska que um dia antes terminava o Giro de Itália num modesto 78º lugar. Mas decerto a cabeça da eslovena de 23 anos estivesse em França a pensar no que faria o licenciado em Ciências Organizacionais e seu namorado, no contra-relógio decisivo que deixou toda a gente de boca aberta, ou quase toda.

Pojacar foi o segundo mais jovem a vencer o Tour, ontem ainda tinha 21 anos, porque o primeiro será para muitos e longos anos, o feito de Henri Cornet que o venceu com apenas 19 anos no segundo Tour, da já centenária história da prova, em 1904. A vitória de Tadej Pojacar pode não ter sido apreciada de uma forma consensual, mas ganhou à Merckx, à Pantani ou à Contador: Ao ataque, a full gas, como muito gosta do esloveno de dizer nas conferências de imprensa. Foi impressionante ver Tadej a desfilar as camisolas de vencedor da montanha, da juventude e a amarela, com aquela calma e parecendo um veterano habituado a vencer, num desfile quase de moda, na chique Paris. Acho que ontem todo o mundo se rendeu ao esloveno, até mesmo o amigo e adversário, mas ambos com uma excelente atitude desportiva. Primoz Roglic, quis cortar a meta próximo do conterrâneo para lhe manifestar a admiração e com um desportivismo que só lhe ficou bem. Mas já falaremos de Primoz, porque as primeiras palavras são sempre para os vencedores.

O Tour deste ano teve de tudo: incerteza, drama, deceção, confirmação e nervos à flor da pele em todas as etapas. A incerteza da ASO quanto ao conseguir colocar na estrada toda a máquina habitual, mas, sobretudo, o ter que alterar, centenas de protocolos para que a exigente Ministra da Saúde Francesa colocasse a palavra «Autorisé» em cada dossier do Caderno de Encargos, negociado com a Organização do 107º Tour de France. Ontem, Christian Prudhomme o habitual Diretor da Prova, ainda recuperando do Covid19 que teria contraído uns dias antes, diria que tinha sido um milagre o Tour ter terminado. É claro que a história deste Tour ainda não estará totalmente contada e muitas notícias ainda estarão por escrever.

A maior deceção não foi mais uma vez os franceses, Pinot ou Bardet, que nunca passaram de promessas francesas a querer lembrar Anquetil ou Hinault, mas sobretudo os colombianos. Egan Bernal trazia o titulo de 2019 na bagagem e uma equipa disposta a renovar-lhe o palmarés, não sei se foi a equipa que lhe faltou ou ele à equipa. Numa das derradeiras subidas de montanha a que todos assistimos foi dramático ver o rosto de Bernal a sofrer na bicicleta montanha acima, com as pernas e a sua cabeça, dessincronizadas. Num jovem de 23 anos, o excessivo peso da responsabilidade pode gerar num curto-circuito corporal. Se calhar foi isso que aconteceu e com isso foi também o estoiro da toda-poderosa Ineos, agora ou para sempre.

Outro «flop» a meu ver, foi a atuação da Jumbo-Visma na terceira semana. Na convição de que é mandando no pelotão, que se ganham corridas e Grandes Tours, não controlaram esforços e estoiraram com ciclistas como George Bennett, Sepp Kuss, Tom Dumoulin e Van Aert, tudo grandes ciclistas a terem de abdicar da corrida a meia dúzia de quilómetros do fim, para protegerem numa bolha, Primoz Roglic e criando stress constante na equipa para abrirem alas a poucos quilómetros do fim ao esloveno para terminar as etapas nos primeiros lugares. Penso que não é salutar, mesmo em corredores experientes como aqueles que acabamos de enumerar, o stress constante de controlar a corrida. Por vezes os meios não justificam os fins. Não sei se o dececionante contra-relógio de Roglic se deveu à má escolha do equipamento e afins, ou à cabeça saturada do esloveno após três semanas metido no meio de uma «floresta amarela» à sua volta e quando não a teve no CRI, pareceu perdido numa pedalada leve e estranha, num capacete perdido numa cabeça também ela descontrolada. Um vencedor tem que ter a cabeça e o corpo unidos. A Jumbo-Visma acabou por ganhar três etapas, uma com Roglic e duas com Van Aert, mas poderia facilmente ter ganho por equipas. Era a mais forte nas montanhas e no contra-relógio. Para ajudar à festa o próprio diretor desportivo da equipa, Merijn Zeeman, envolveu-se com os comissários da UCI na hora de verificarem as bicicletas. Tinham em mãos a de Roglic… A camisola verde no dorso de Sam Bennett foi emocionante, porque ele merecia essa distinção, não obstante as sempre polémicas, envolvendo Peter Sagan, com ou sem «culpas no cartório». Ainda sobre os colombianos a noticia de hoje que dá conta que a policia francesa andou a investigar uma serie deles em pleno hotel, a começar pelos da Arkéa-Samsic, com Quintana à cabeça, por suspeitas de consumo de substancias menos próprias…

Foi um Tour diferente, num ano diferente. Teve histórias diferentes. Teve as confirmações que a juventude é o futuro, na forma como corre, como dá espetáculo, como é ambiciosa. Pessoalmente tinha sinalizado o suíço Marc Hirschi, acompanhado pelo Cancelara numa cronica de Maio, como ciclista a seguir em 2020. Todas as jovens promessas cumpriram e até excederam as expectativas como foi o caso de Tadej Pojacar que muito poucos acreditavam pudesse ganhar o Tour sem equipa. Isto mostra que o ciclismo está diferente e que voltamos ao passado de Merckx, Pantani ou Contador. Não precisavam de equipa na hora em que achavam que tinham que arrancar. Não haviam computadores, nem dados de potencia, nem cardíacos. Havia apenas, cabeça, tronco e membros. E viva o ciclismo livre de tecnologias.

Jorge Garcia