As mudanças do ciclismo contemporâneo ( 1)

A fase final do Tour começa hoje, são cinco dias terríveis onde qualquer erro representa o desaparecimento de cena. Num ano atípico, mais se acentuaram as diferenças entre equipas e ciclistas, dando sinais como será o ciclismo do futuro, onde os valores dos intervenientes têm tendência a serem efémeros.

Os grandes nomes do ciclismo, como Coppi, Hinault, Merckx, Anquetil, Indurain, Armstrong que dominaram durante anos o panorama competitivo da sua geração tem tendência a ter os dias contados. Os grandes nomes do ciclismo moderno, já não se contam pelos dedos das mãos, eles são mais, muitos mais, e cada vez mais especialistas. O ciclismo acompanhou o desenvolvimento da indústria, cada vez mais centrada na exploração dos seus funcionários num trabalho especializado, com o objetivo de obterem melhores rendimentos. Dotadas de milhões, as equipas centram a sua atenção em áreas distintas, como os ciclistas para os três grandes Tours, para as clássicas, e dentro de uma equipa, existem várias formações, dotadas de um chefe de fila para esta ou aquela prova, com os seus trabalhadores próprios. Equipas ecléticas, com capacidade para discutirem em todas as áreas são poucas.

Vejamos o caso da Deceuninck, por exemplo, que centra todos os seus recursos nas provas de um dia, menosprezando a luta direta pelo triunfo nas grandes provas por etapas. Ou o caso inverso da Ineos, por exemplo, que centra todos os seus meios nas grandes provas por etapas.

Pelo meio, fica uma Jumbo-Visma que é uma das poucas formações mundiais, que se pode considerar verdadeiramente completa e polivalente, com ciclistas especialistas em diversas áreas. Nas provas de um dia tem, neste momento, o ciclista mais desejado do mundo, Wout Van der Aert, considerado favorito para provas como Paris-Roubaix ou o Tour de Flandres. Detém um dos melhores sprinters, como Groenewegen para as provas por etapas, e naturalmente ciclistas como Dumoulin e Roglic para as provas por etapas. Todos estes ciclistas têm ao seu lado ciclistas capazes de dar o apoio aos seus distintos chefes de fila. A equipa que acompanha Roglic no Tour, não é a mesma que acompanhará, por exemplo, Van Aert nas provas clássicas.

O que parece estranho no meio de tudo isto, são os valores astronómicos e os recursos que a Ineos dispõe, para apenas os valorizar num único campo de ação: os grandes Tours. Se repararmos ao longo da sua existência não coabitaram na equipa, ciclistas com caraterísticas tão diferentes, como os sprinters e os ciclistas com propensões para as provas por etapas. Cavendish terá sido a exceção, mas isto ainda numa fase embrionária da equipa britânica. Se atentarmos bem, uma equipa que vem para o Tour, com o objetivo de o ganhar, não pode dispersar forças controlando para a amarela e para ganhar etapas, colocando em perigo toda a estratégia da equipa.