Casos raros deste Tour

Um caso raro na Volta à França ? Não deixa de ser uma surpresa a situação de Egan Bernal ? Este Tour tem coisas estranhas, tão estranhas pela sua contínua teia de surpresas.

Começamos pela desajustada prestação de Egan Bernal, que muitos viram em 2019, como futuro dominador do Tour, por muitos e longos anos. O colombiano, jovem, sem experiência, mal aconselhado certamente, cometeu muitos erros, dois deles fundamentais. Primeiro a sua paupérrima preparação para o Tour, com cavalgadas de 300 kms, por zonas com grandes altitudes, acumulando grandes desgastes físicos. Bernal teve algumas dificuldades para treinar corretamente. Quis fazer tudo de uma vez, sujeitando o seu organismo a cargas máximas, em quantidade e qualidade, que vieram a revelar-se péssimas. O problema da preparação de Bernal tem muito a ver com a ausência de orientações da Ineos, transformando-se numa formação vulgar, onde o rigor do pormenor deixou de ser uma referência da equipa, notando-se o quanto foi demolidor para a formação britânica o desaparecimento de Nicholas Portal.

O segundo erro de Bernal terá sido a falta de humildade, um pouco a arrogância de um jovem, que quis ser o leader único de uma equipa, que ficou amputada das suas melhores figuras. O seu abandono do Dauphiné foi um exemplo do que atrás dissemos. Bernal até pode ser , ou pelo menos vir a ser um grande ciclista, mas ainda lhe falta lá chegar e confirmar.

A única desculpa para Bernal é a de muitos ciclistas, quando no período de confinamento, os níveis de preparação foram diferentes de país para país, Nuns era permitido os treinos na estrada, noutros eram proibidos e isso, talvez esteja a ter agora os seus reflexos, causando uma grande diferença entre ciclistas.

Outro caso raro no Tour é o domínio da Jumbo, um domínio que peca por excessivo . Na alta montanha vão lá todos, até mesmo Van der Aert, e uma equipa que controla não pode discutir uma classificação por equipas. Se atentarmos na geral por equipas, agora novamente dominada pela Movistar, quem surge em segundo lugar : a Jumbo-Visma. Este é, na verdade, um caso raro.

Mais raro ainda, é o contínuo desaparecimento de cena dos nomes de ciclistas oriundos de países tradicionais do ciclismo, em especial europeus, durante décadas a meca da modalidade. Destes, por curioso que pareça, a Espanha é o único que conserva dois ciclistas nos dez primeiros. Fora disso, aparece Tom Dumoulin na décima posição. Italianos, franceses, belgas nem vê-los por perto. Agora temos eslovenos, australianos, britânicos, colombianos, o ciclismo mudou. Falta saber se para melhor.

Fala-se muito dos jovens que ganham e são, aos 20 e 21 anos, ganhadores. Nomes como Evenepoel, Van der Poel, Bernal, Pogacar, mas na geral da juventude um pormenor importante e raro: o quarto classificado, Valentin Madouas, da Groupama está a uma hora e vinte minutos do líder Pogacar. A diferença é abismal. Os jovens, afinal, são bons mas não são tantos quanto isso, pelo menos neste Tour.

Raro também, tem sido a liderança de Benoit Cosnefroy, o ciclista da AG2R já deve andar mortinho de ficar sem a camisola das bolinhas, ele que não tem jeito nenhum para trepar, conseguiu um feito único que é conservar a sua túnica de guia durante duas semanas, quase praticamente sem se mexer. Na discussão desta classificação aparecem nomes da geral individual, Pogacar é segundo e Roglic terceiro, sinal evidente que os ataques têm sido muito poucos neste Tour.

Raro também tem sido a luta pela camisola verde. Sagan quer ganhar a oitava e entrar para a história do Tour. Foi prejudicado pela injusto castigo da sua desclassificação ( nr. nossa opinião), mas não baixa os braços. No intimo sabe que ainda pode ganhar, mas agora é quase impossível, a não ser que Bennett numa das ultimas etapas, apanhe boleia no carro vassoura.

Por ultimo, as quedas é um caso raro e digno de estudo. Esta última queda de Higuita, provocada por Jungels, demonstra a falta de concentração dos ciclistas em prova.