Ser verde está na moda… apenas isso

O ciclismo tem uma imagem, certa, de desporto amigo do ambiente. Porém, também sabe quem anda pelas provas, ou conhece o que é o ciclismo que o impacto que provoca uma prova como o Tour, com toda a sua imensa caravana, acaba por deixar a sua “pegada ecológica”.

Mas as circunstâncias têm mudado. Há cada vez mais preocupação ambiental no seio do ciclismo. Os próprios ciclistas têm já comportamentos diferentes, nas corridas e sobretudo nos treinos. Os ciclistas mais jovens já não nos proporcionam alguns comportamentos que, para alguns mais antigos, ainda são normais. Aliás, uma parte importante do ensinamento nas equipas dos escalões de formação incide sobre a matéria ambiental.
Os próprios materiais utilizados, vêm mudando. Os bidons serão o melhor exemplo disso. Mas uma prova de ciclismo, sobretudo por etapas, com toda a sua estrutura não deixa de provocar algum impacto ambiental. Mas um impacto cada vez mais controlado.

Retomando o Tour, algumas das principais câmaras municipais francesas, foram, recentemente, tomadas pelos partidos “verdes”. E, algumas dessas câmaras colocam agora reticências a receber o Tour, precisamente por causa desse impacto ambiental. Para alguns desse “verdes” faz também confusão como é que o ciclismo se deixa patrocinar pela Ineos, pela Total ou por empresas desse género anti-ambiente.

É certo que podemos, e devemos, ter as nossas impressões de vida. Contudo, o que se vai vendo pelos dias que correm é uma onda demasiadamente radical e pouco saudável, ora para um lado, ora para o outro. Enfim, sabemos que com a insatisfação habitual de alguns grupos, agora era a Ineos e a Total, depois não chegava, e tinha de ser a Fly Emirates e a Citroen. Já existiram cortes suficientes no financiamento desportivo à conta de sensibilidades. E é preciso nunca nos esquecermos que, dentro dos padrões da normalidade, a nossa liberdade termina onde começa a dos outros.

Neste contexto, pelos tais padrões da normalidade, devemos desde já dizer que o ciclismo não será dos desportos mais inimigos do ambiente.

Por mera curiosidade e partilha pessoal, durante sete anos, estive num departamento do ambiente pertencente à administração pública. Muitos engenheiros do ambiente (que não é o meu foro), bem verdes, bem radicais, ambientalistas convictos, mas que, sem excepção, iam todos de carro trabalhar (uma fazia, e faz, pouco mais de 1km…). No meio de cerca de trinta pessoas era eu, sem ser um radical do ambiente, o único, que ia de bicicleta ou a pé. Ainda assim, apesar de ser um departamento de ambiente, era quase olhado de lado e via-me “à rasca” para guardar a bicicleta dentro do edifício!

Enfim, em resumo, impor boas ideias aos outros é bem mais fácil. E mesmo os “verdes” não deixam de ser políticos. E ser “verde” está na moda. Apenas isso.
Luís Gonçalves