E se o Tour não terminar ?

Nenhum fervoroso adepto de ciclismo aceitaria que o Tour não terminasse por causa do Covid19. Mas essa possibilidade existe e não estou a agoirar porque todos sabemos que temos à porta uma nova vaga da pandemia.

Neste momento a situação a nível mundial no que diz respeito ao malfadado vírus é de impasse face ao seu crescimento dia após dia. Ele vai aparecer em força em Setembro, diziam especialistas. Estamos em Setembro. A partir de agora qualquer luz que pisque, será a vermelha e ficará intermitente nas nossas cabeças com a palavra Covid. Muito se escreveu sobre ciclismo no confinamento e as crónicas eram sempre pessimistas e rara as vezes, a prever um holocausto na modalidade. Mas a partir de Maio e após quase três meses de confinamento a nossa vida recomeçou, em moldes muito especiais. Os ciclistas que tinham a época em preparação tiveram que a suspender e limitarem-se às regras que cada país adoptou, mediante a sua situação.

A UCI não baixou os braços e repensou num novo calendário, principalmente com as provas principais que todos os anos movem milhares de aficionados. Era preciso salvar o ciclismo, os patrocinadores dos ciclistas e as famílias que dependem única e exclusivamente do ciclismo. O Tour esteve durante várias semanas em dúvida já que o confinamento em França com um estado de emergência em vigor não permitiria vaticinar um mudar de situação. Logo que houve uma janela de oportunidade a ASO meteu as bicicletas ao caminho e redesenhou um novo Tour. Apesar da prova ter sido pensada, repensada, alterada, e em risco de nunca ter partido de Nice no último sábado, o Covid é sempre uma ameaça que vai pairar no ar no seio da caravana todos os dias. Pelo que se tem visto pela televisão, os ciclistas têm tomado todas as providencias no sentido de se protegerem, usando máscaras nas partidas e não se manterem em ajuntamentos. Aparentemente tudo parece controlado no que diz respeito à bolha criada para que os ciclistas estejam protegidos. Mas o problema não está no pelotão para já, mas pode vir a estar. E os ciclistas sabem disso.

Apesar da organização seguir à risca todos os protocolos que é obrigado, e que deve ser supervisionado em todos os minutos em que a prova mexe, quer na montagem de toda a estrutura que envolve partidas e chegadas, das autoridades que estão responsáveis pelo controle de espectadores nas estradas, quer nas outras entidades que fazem parte do grande circo. A grande máquina de marketing que é preciso fazer para promover as marcas que estão escritas nas camisolas e o das próprias bicicletas, a comunicação social, a estrutura da UCI com as dezenas de comissários e outros intervenientes que estão ligadas às equipas, sem esquecer o staff dos hotéis , etc. O Tour sempre se pautou pela abundância que os franceses, em particular, gostam de mostrar. Não faço a mínima ideia de quantas pessoas estarão envolvidas diariamente em cada etapa como segundas figuras, porque as primeiras são os 176 ciclistas que iniciaram a prova. O aburguesamento do Tour tem que ser mostrado para que a fama de ser o melhor e o maior evento velocipédico do Mundo , e nesse aspecto , não podemos pedir muito menos para o que estamos habituados a ver durante dezenas de anos. Mas, convenhamos, a prova tem uma alta exposição à pandemia.

O Tour em duas semanas faz os tais 14 dias que parece ser o prazo para o virus se manifestar. Se passarmos esse prazo sem grandes casos, arrisco que veremos a consagração dos vencedores nos Champs-Élysée. Mas se o Tour não terminar, temos duvidas que a Vuelta se realize e muitas outras provas. E o sonho do calendário que a UCI criou, esfuma-se por entre dúvidas do que será o ciclismo em 2021.

Jorge Garcia