” A nossa esperança é que apareçam “outros” que nos entusiasmem, num ciclismo cada vez mais óbvio, preciso, racional e cada vez mais prevísivel “

Quando escrevemos este artigo, estamos na fronteira entre o amanhã e o hoje, ou seja estamos perto as 24 horas de sexta feira. Finalmente, sábado 29 de agosto, o Tour vai para a estrada, e nunca, em momento algum, uma prova de ciclismo foi mais desejada e ansiada.

Uma prova que irá por à prova a capacidade organizadora da ASO e do maior espetáculo desportivo do mundo, capaz de se familiarizar com as estradas vazias de público, sem a grandiosidade que é a sua imagem de marca .

As coisas não estão fáceis em França, onde o Covid ataca em força, o que obrigou já a medidas extraordinárias, na zona da partida, nos Alpes Marítimas, zona vermelha, que obrigou, por exemplo, que das 2500 pessoas previstas na zona de partida, apenas lá possam estar pouco mais de 50. Que o acesso às montanhas do Tour vai ficar bloqueada ao trânsito dois dias antes. Dir-se-á que o público será aos milhões, mas através da televisão, esquecendo-nos que a grande beleza e força do ciclismo, está precisamente no público na borda da estrada, que vibra por segundos com a passagem dos ciclistas, e que durante um ano inteiro não se vai cansar de recordar aqueles breves e únicos momentos.

Um Tour que parte com muitos recados, com muitos bluffs , Bernal ainda não recuperou da queda, Roglic vai alinhar mas esteve quase para ficar de fora, Dan Martin foi inscrito à última hora, enfim um mar de pequenas e pouco significantes mentiras. Ao cabo e ao resto estão todos na sua máxima força, todos os principais ciclistas do mundo, até porque ninguém ou quase ninguém quis arriscar no Giro e na Vuelta, porque o Covid continua forte, e a este sim, ninguém até agora o venceu. Pelo meio ficaram nomes que perderam força, influência como Thomas e Froome, o que ocasionou que só um vencedor do Tour, no passado, esteja presente em Nice. Referimo-nos a Bernal, que comanda um pelotão de colombianos digno de um exército invencível com homens como Angel Lopez, Quintana, Daniel Martinez, Urran, que cerrarão fileiras ao lado de grandes favoritos como Primoz Roglic, Romain Bardet, Mikel Landa, Emmanuel Buchmann, Tadej Pogacar, Richie Porte e Thibaut Pinot .

O Tour é único, veremos, contudo, a sua força aumentar e resistir ao Covid, à mudança de data, à ausência de público ? Teremos de ser otimistas e esperar uma grande competição, não só entre duas equipas ( Ineos e Jumbo), não só entre dois ciclistas ( Bernal e Roglic), não só entre dois “sprinters” ( Sagan e van der Aert), não só entre aventureiros ( Alaphilippe e Thomas de Gendt), a nossa esperança é que apareçam “outros” que nos entusiasmem, num ciclismo cada vez mais óbvio, mais preciso, mais racional e cada vez mais previsível.