A política da segurança

Nestes últimos tempos, temos tido quase uma overdose de ciclismo. Não é que seja um excesso mau, sobretudo depois de tanto tempo a seco. Mas torna isto tudo muito confuso, sobretudo no Worldtour, onde têm existido, de facto, muitas provas ao mesmo tempo. Já noutros calendários a questão é outra, com claro prejuízo para as estruturas extra Worldtour, como sempre.

Vemos também que há imensas preocupações com o Covid-19. Muitas delas, uma pura questão de imagem. E no meio dessa mega overdose que são as medidas sanitárias, que também ninguém entende muito bem como são e quais são, andando um pouco ao sabor da corrente, o certo é que tem existido algum desleixe em relação a tudo o resto, e é muito, que possa envolver uma corrida de ciclismo ou as estruturas do ciclismo, designadamente as equipas.

A segurança dos intervenientes em prova é uma circunstância antiga. O ciclismo sempre foi feito de acidentes e incidentes. Ninguém os quer, mas assim continuará a ser. Mas esta exigida adaptação às medidas sanitárias, parece ter sido descurada na adaptação de outras medidas, porque, se as corridas estão diferentes, talvez também a sua estrutura logística tenha de ser diferente. Ou seja, de uma forma simples, não podemos obrigar a malta a andar de máscara, porque parece bem, ou a guardar os bidons sabe-se lá onde, porque parece bem, e não garantir outras situações bem mais imediatas, essenciais e de sustentabilidade.

Não é nada fácil fechar a via pública. Uma prova de ciclismo, na estrada, é tudo menos estanque, por mais cuidadosa que seja a organização. E, sem dúvida, sempre foi esta uma das maiores preocupações de qualquer organização. Por isso se gasta tanto dinheiro em policiamento, tantas vezes complementado por bom trabalho voluntário. É um foco, era, o foco principal. O foco agora é, com algum exagero obrigatório, outro.
À conta da entrada do carro, em prova, na Lombardia, a UCI abre um inquérito à RCS. Não deixa de ter piada. Sem ir mais longe, sobretudo se nos lembrar-mos dos campeonatos do mundo do ano passado, com organização da UCI. Nem há notícia de estarem a analisar se as barreiras utilizadas sem público, são garante de segurança suficiente, ou se nalgumas curvas não será melhor colocar material de segurança. Dá trabalho. Sobretudo fiscalizar. É mais fácil empurrar as culpas.

A RCS, e os italianos, queixam-se de perseguição. Dão o exemplo do seu calendário, claramente prejudicado em relação às provas francesas. Falam em favorecimento da UCI, comandada por Lappartient.

No nosso mundo, o do ciclismo, a RCS, ao contrário da maioria, ainda é uma estrutura que tem capacidade para confrontar a UCI. Isso, para esta UCI, é inconveniente. Sabe-se que o Covid-19, neste momento, baralhou as contas todas, em tudo. Mas já vemos muito mais política, politiquices e jogos de força, do que saúde. Daqui a uns anos a História confirmará isso, e ninguém escapará.
Luís Gonçalves