Recordar ideias…

Num dia normal, estaríamos em Castelo Branco. Cidade que, talvez a par de Portalegre, me traz das melhores memórias que tenho da Volta a Portugal.
Nesse dia normal, já víamos a ansiedade dos protagonistas, a revelação das surpresas, todo o colorido que só a Volta traz, a primeira camisola amarela da 82ª edição. Favoritos? alguns. Eu tinha o meu.

Mas não estamos num dia normal. Aliás, bem no campo oposto, só temos vivido anormalidades. Continuo a dizer que talvez em excesso e com demasiadas mensagens contraditórias. O mesmo Estado que nos diz para sair e movimentar a economia, tem muitos dos seus serviços quase encerrados. Não é uma mensagem produtiva.

Ora, em Castelo Branco teríamos concerteza calor, gente para ver os ciclistas, gente à procura do brinde, gente simplesmente para participar na grande festa popular que é a Volta a Portugal em bicicleta, o maior evento social do Verão português desde há muito. É preciso reforçar-se esta ideia. É preciso lembrar a Volta, e o Ciclismo.

Mas, num dia que não é normal, talvez também seja necessário recordar outras ideias.

No final da Volta 1997, a que foi transmitida pela SIC e venceu Zenon Jaskula, dizia o terceiro classificado: “O ciclismo português sempre foi muito irregular, porque sempre viveu à custa de algumas pessoas. Claro que quando elas decidem abandonar a modalidade o ciclismo ressente-se (…) No fundo é muito limitado o grupo de pessoas de que o ciclismo português depende…”. O terceiro classificado foi Joaquim Gomes, que se empenhou na formação do LA-Pecol.

Já o campeão nacional de fundo de 1997 rematava uma declaração dizendo que “o nosso (ciclismo) deveria ser mais dinâmico”. O campeão nacional foi Delmino Pereira.

A marca Volta a Portugal não pode nem deve esmorecer. Recuperar agora desse esmorecimento é diferente de 1975, quando nos aguentámos com o GP Clock. Agora, a implantação do ciclismo de competição é bem diferente e a concorrência desportiva bem mais feroz.

Em 1997, dois dos protagonistas do ano, em cima da bicicleta, falaram. Já viam bem o que era o ciclismo português. E falavam em anos gordos. Será agora, como protagonistas em anos, infelizmente, magros, que melhor devem recordar e renovar as suas ideias e tentar construir alguma coisa que mude esta dinâmica.
Luís Gonçalves