Uma crónica cheia de nada

Resumindo, antes de escrever qualquer coisa de concreto sobre ciclismo, coloque eu o texto no principio, no meio ou no fim, vai dar ao mesmo: ou seja, em nada! Para mim, e se calhar para muitos, o ciclismo está em modo pausa desde Março e a nossa vida também. Nota-se um certo distanciamento entre as pessoas, com um ar de que andam perdidas, de que não fazem parte do cenário onde sempre estiveram na sua vida. Quer na vida privada, quer na profissional. Andamos tipo zombies. Não sei se anestesiados pelo forte impacto emocional que nos causa a pandemia ou se estamos sem anestesia e isto será o «primeiro dia do resto da tua vida», a frase batida como cantou Sérgio Godinho. Lemos qualquer cronica num jornal em papel ou digital e acabamos rendidos ao pessimismo do escritor. Não consigo ler uma crónica otimista. Não consigo escrever nada sem um toque de pessimismo, a parecer o Velho do Restelo no cais a criticar Vasco da Gama.

A ultima vez que vi os portugueses unidos em volta de uma causa comum foi em 2004. Quando o selecionador brasileiro Luís Felipe Scolari, pediu união ao portugueses – será que ele se apercebeu que só o futebol da seleção une os portugueses? – para colocarem uma bandeira em cada janela em sinal de amor pela pátria. A mensagem passou, as bandeiras foram sendo colocadas nas janelas e o marketing aproveitou-se como sempre do momento. Tudo o que vendia, oferecia uma bandeira. Bem sei que é o espírito patriótico a tocar nos corações das pessoas. Mas resultou. E a ideia não foi nossa, de um português, foi de um brasileiro que demonstrou ser mais português do que ninguém. De resto os portugueses não se ralam com mais nada porque o seu umbigo é o seu bem de estimação. Querem lá saber se há Volta a Portugal ou se não; querem lá saber se o Presidente da Autarquia da sua terra vetou um evento porque achava que o ciclismo ia infetar todos os seus munícipes com o malfadado Covid. A distancia social que adotam e os seus comportamentos, estão a ser monitorizados por CCTV no gabinete do Presidente da Câmara, dia e noite. Por ele próprio. Não há nada de mais perigoso neste momento do que ver passar os ciclistas aos olhos do autarca político. Apetece-me perguntar: os seus munícipes vão ter que ver este ano no seu concelho o quê, senhor presidente? Nada! Não passarão os ciclistas que eles gostavam de ver e não vão haver feiras e romarias. Não vai haver nada de nada porque o senhor pratica o culto do medo nas pessoas. Mas se calhar permite ajuntamentos e outras praticas que podem fomentar a disseminação do vírus maldito! A responsabilidade de precaver esses incautos atos é sua. É a autoridade suprema da Proteção Civil. Aquele blusão vistoso que é usado quando as coisas correm mal, mas que é sinónimo de poder e de vaidade em muitos casos.

Não posso culpar a Podium por não ter conseguido substituir os três municípios que vetaram, à ultima da hora, as partidas e chegadas que estavam acordadas e algumas já com enorme tradição. Mas parece-me que os municípios não fizeram o mínimo esforço para colaborarem com a organização para que a Volta se realizasse este ano em condições, um poucos diferentes, é certo, mas que eram exequíveis de se fazerem. Os presidentes das autarquias sabem que os seus municípios precisam da Volta e de outras provas desportivas para darem a conhecer as suas regiões e promoverem o seu turismo. O ciclismo é um desporto gratuito para a população, serve para o negócio de proximidade arrebitar e para muitos jovens começarem a ter o gosto pela modalidade e enveredarem por uma nova vida desportiva que até então não a tinham. Vou então enquadrar as mais valias de uma passagem da Volta a Portugal em bicicleta: mexe com a Cultura, Economia e a Educação. Os três pilares básicos que um presidente de um município se deve preocupar e deve investir. Não são as feiras e romarias que vão continuar a existir por este país que serão menos perigosas para a saúde publica do que a passagem dos ciclistas. O que é que os senhores presidentes querem fazer pelos seus munícipes nestes tempos incertos? O melhor é não fazerem nada. Nenhum munícipe lhes vai cobrar nada e vão continuar a ter os votos fiéis porque tiveram mão dura para proibir a passagem dos ciclistas. E o subsidio que a Câmara dá para o futebol lá na terra é suficiente para todos os fregueses do concelho. O trabalho político só precisa dos serviços mínimos. O resto é tapar uns buracos aqui e ali, uns relvados sintéticos comprados a conhecidos e fazer umas piscinas municipais. É este o caderno de encargos político. Qualquer um de nós faz isso, mas se calhar faríamos mais: moveríamos montanhas para que a Volta a Portugal passasse no nosso Concelho.

Assisti como muitos leitores, ao espetáculo deplorável que foi anunciar a vinda para Portugal da Fase final da Liga dos Campeões de Futebol por parte das altas esferas do poder político. Ora veja quem esteve presente nesse anuncio em Belém: Presidente da Republica, Presidente da Assembleia da Republica, Primeiro Ministro, Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Ministro da Educação, Ministra da Saúde, Presidente da Câmara de Lisboa, Secretário de Estado da Juventude e Desporto, Vice-Presidente do Benfica, Presidente do Sporting

Um exagero. Este país vive uma relação perversa entre o poder político e o futebol que não interessa a todos os portugueses. Porque os portugueses são bem mais dos que andam no futebol. Os portugueses são também os que trazem medalhas olímpicas, de campeonatos do mundo, da Europa e de torneios internacionais. Gostava de ver anunciar a 82ª Volta a Portugal em Bicicleta pelos mesmos personagens atrás mencionados. Com a mesma pompa e circunstancia a ouvir o Sua Excelência o Presidente da Republica Portuguesa começar o seu discurso com estas palavras: « Portugueses e Portuguesas, sabemos que o ciclismo é uma modalidade muito querida em Portugal e que é transmitida pela RTP para todo o mundo e por isso tem uma audiência incalculável. Quero agradecer o esforço de muita gente que permitiu que a Volta a Portugal saísse para a estrada este ano em condições especiais, como todos sabem, mas que foi possível articular com os vários ministérios e com as varias autarquias envolvidas. Eu próprio me envolvi nesta nobre causa de desígnio nacional…»

Jorge Garcia