Reorganizar as organizações

Ontem foi um daqueles dias em que temos de respirar fundo e contar até dez. No meu caso, respirar bem fundo e contar até mil.

Andamos para trás e para a frente com o ciclismo, ou por outra, assim, de facto, não andamos para a frente. O ciclismo português está, há vários anos, pendurado por pinças. A questão não é exclusiva nossa. Por esse mundo fora, tirando as grandes estruturas Worldtour e pouco mais, o resto é feito um bocado a olho. Com graves culpas para a UCI, que só tem tido olhos para um lado…

No contexto, não podemos deixar de reparar que o nosso sistema de organização de corridas, parou, há cinquenta anos. No nosso âmbito, empresas organizadoras, há poucas, e as que existem, em muitos casos (só uma se safa), deixam um rasto de incumprimento que não devemos ignorar.

O grosso das competições efectuadas em Portugal têm o dedo de um clube ou de uma associação, que pedem emprestadas a tutela às associações e à Federação, nem sempre com as relações mais profícuas. Basta que a coisa corra mal e todos os ónus e encargos caiem em cima do clube, perdendo-se rapidamente o rasto a quem de facto é responsável pela organização de uma prova.

Se, na formação, o modelo de clube organizador da “sua” corrida tem funcionado, o esquema amador, já se compadece mal com o ciclismo profissional ou, com um tipo de ciclismo que se quer profissional.

Naturalmente que existem extraordinárias organizações por parte de clubes e, não podemos nem devemos dispensá-las, mas, talvez, tenhamos que começar a pensar num calendário, digamos, mais profissionalizado.
Começar a pensar. É este o ponto de partida, porque não se mudam características de um dia para o outro. Ninguém é ingénuo para acreditar nisso. Mas, das adversidades surgem por vezes grandes ideias. Recordemos como começou a caravana publicitária do Tour.

Num tempo em que a tecnologia e a ciência vêm dominando o ciclismo, em que as grandes equipas, os grandes ciclistas e até as equipas mais modestas e os ciclistas mais modestos estão cada vez mais metódicos e organizados no treino (e alguns o esforço que fazem para que isso aconteça, verdadeiros milagres financeiros!), não podemos depender de organizações, desorganizadas, que sobrevivem quase em exclusivo da boa vontade voluntária de poucos.

Há nisto, uma certa displicência. A boa vontade, e coragem para fazer, é algo cada vez menos abundante. E os clubes e associações a quem emprestam, apenas isso, os títulos de organizador sabem bem disso.
Se este tempo nos pode ensinar muita coisa, uma delas é precisamente ponderar o que queremos para futuro, que tipo de certezas queremos para a modalidade, que estruturas teremos obrigatoriamente de reorganizar, que estruturas teremos de criar.

As regras actuais (mesmo as pré-pandemia, que isto da pandemia é apenas um pequeno rastilho, já mais político do que sanitário) já não se compadecem com a nossa vida até há bem pouco tempo. O dia das corridas de festa, com bons prémios monetários e em espécie, onde se juntavam grandes nomes do ciclismo ao fim da tarde, é já um dia longínquo. Não sei se bem, se mal. Perdeu-se muito do encanto romântico da modalidade, mas é assim.
Luís Gonçalves