Sim… nós conseguimos

Na primeira eleição presidencial de Barack Obama, foram popularizadas duas expressões que, porventura, serão lembradas durante uns anos. Em português, “Sim, nós conseguimos!”, durante a campanha, e no discurso de tomada de posse o “Nós, o povo!”.

Naturalmente, pelo tempo, expressões diferentes das que usou Churchil, ou Júlio César, cada uma a seu tempo e que só são úteis quando devidamente percebidas no seu tempo. As de Obama, expressões enquadradas na realidade contemporânea. Só o tempo dirá se Obama (que ficará sempre na história por ser o primeiro Presidente afro americano) foi de facto um bom presidente, se foi de facto merecedor do prémio Nobel da Paz, prémio que Mahatma Gandhi, não recebeu… enfim, política!

Como em tudo na vida, desde sempre, dependemos da política. Evoluiu menos a ciência política em cinco mil anos, porventura porque a maioria dos políticos deixam a desejar, do que a ciência desportiva em cem. Mas dependemos mais da ciência política.
Por isso, também o ciclismo é refém da política, ora interna, em guerrilhas estéreis ou actos impensados, que não ajudam nada, ora externa. No plano externo sempre tivemos, e teremos, é bom que não nos esqueçamos disso, de andar de braço dado com o poder político local. É este, em primeira linha, que nos vai garantindo alguma sustentabilidade, pelo uso do território local, pelo apoio financeiro que as corridas têm, pelo inevitável apoio de que depende muito do ciclismo de formação.

Depois, mais acima, já no plano estadual, surgem sobretudo políticas desportivas, importantes porque podem traçar o destino próximo de cada modalidade, ou apoios à prática desportiva entregues às Federações que os vão distribuindo, ou usando, de acordo com cada orçamento.

Enfim, nestas valências políticas, em Portugal, nomeadamente a nível autárquico, o ciclismo, ia sobrevivendo. Porém, esta pandemia (com este nome porque chegou aos países normalmente ricos. De outra forma era um vírus que tinha “atacado” África) pôs completamente a nu algo que já vinha sendo relatado nos meandros do ciclismo nacional. Infelizmente, é claramente visível, a progressiva perda de influência política do ciclismo, como modalidade de competição.

Para além de estarmos num país em que o futebol seca quase tudo, a concorrência é cada vez maior e não nos soubemos preparar para isso. Falta de preparação ou algum desleixe. Nem sequer soubemos reclamar a merecida condecoração presidencial ao nosso Tiago Ferreira, reclamação que, por exemplo, a Federação de Atletismo fez em tempo útil e muito bem, porque está bem ciente do mercado actual. São pequenos pormenores, mas pequenos pormenores que os políticos observam como hienas.

O ciclismo, tal como o atletismo, continuam a ser das modalidades mais populares e com mais massa de apoio popular. Ninguém duvida disso. Contudo, nós, o povo, não conseguimos dar-lhe visibilidade real. Apenas, porque não deixam. Ninguém duvide que se se tratasse de um jogo dos oitavos de final da Champions, o edil de um qualquer município do país, se marimbava para mensagens contraditórias emitidas para, nós, o povo. Deixava de ser um problema sanitário e passava a questão de salvação nacional e de economia local. Porquê? influência política.
Por este tempo, nalguns sítios, já nem de graça querem o ciclismo. Mas se fosse um joguinho da Champions, nem aparecia nenhum virologista armado em vidente…

Mas, o ónus essencial dessa influência política não pode estar exclusivamente nos ombros de um organizador, por tendência uma empresa com fins lucrativos, devendo pesar em larga escala sobre as costas das Federações. Nomeadamente, porque são estas, em primeira instância, os garantes da modalidade. É a sua principal e única obrigação. Ah, e garantir a modalidade é também dar alguma dignidade. Fazer por fazer algumas corridas mais vale optar por um treino clandestino ou um passeio na Estrada Nacional 2.

No meio de tudo, felizmente que ainda há autarquias fiéis aos seus projectos e que, não menos importante, continuam a acreditar na boa vontade e organização do Estado central e dos seus organismos, os mesmos que servem para franquear a abertura de praias, de turismo e distribuir atribuições. O ciclismo, vai ter a sua reabertura. Não é a Volta a Portugal, mas pode ser um bom exemplo de como Nós, o povo, mesmo sem intrigas políticas, podemos dizer a alguns políticos de pacotilha: – Sim, Nós Conseguimos!
Luís Gonçalves