Agonia por Viana

Há já uns anos, num dia de Setembro de 1931, durante a segunda edição da Volta a Portugal em bicicleta, que teve edição inaugural em 1927, mas depois um curto interregno até esse ano de 1931, o ciclista do Campo de Ourique, João Francisco, que seria terceiro da geral dessa Volta, vencia uma etapa que ligava o Porto a Viana do Castelo. A etapa seguinte, em 1931, ligava esta amável cidade minhota, à Póvoa de Varzim. Era a segunda edição da Volta a Portugal em bicicleta, que se prepara para a sua 82ª edição.
O gigante José Maria Nicolau, do Benfica, chegou e partiu de Viana do Castelo, em 1931, vestido de amarelo. Protagonizou, nesse ano, mais uma das acesas lutas com Alfredo Trindade (desta feita na União Ciclista Rio de Janeiro e não no seu Sporting), disputa, a que os vianenses, de Viana do Castelo, puderam orgulhosamente assistir. Ai, a História, e o respeito pela História.

Viana do Castelo é uma cidade com identidade de Volta a Portugal. Mais se diria, uma cidade com identidade de ciclismo, tal o número de competições diferentes que já por lá passaram. Tem, ainda, alguns dos mais memoráveis ciclistas nacionais, algumas das mais inesquecíveis equipas do ciclismo nacional e uma corrida de referência no ciclismo jovem que tem marcada em 2020 a sua 45ª edição, o tradicional Circuito de Santa Marta de Portuzêlo. Mais do que tudo, sempre soube receber bem o ciclismo, tirando também óbvios dividendos disso.

Por isso, é daqueles municípios, como outros que andam por aí, e esperemos que pelo menos o vírus das ideias estanque em Viana, dos quais menos se esperaria um virar de costas à modalidade, ainda por cima, com fundamentação básica. Política de Junta de Freguesia com duzentos eleitores, quando se discute a limpeza das valetas. E não se tenham dúvidas que por vezes se discute mais política de forma bacoca em anos de fim de mandato. As sucessões são um saco de gatos!

Se o objectivo é não passar mensagens contraditórias ao munícipe vianense, veja-se o que diz documento oficial produzido em reunião de câmara sobre as festas ou cerimónias da padroeira local (que nem ela, ou os outros Santos, mereciam tanto abandono): “realizadas com todos os condicionalismos de representação presencial que forem autorizados pelas autoridades de saúde e os normativos do Governo”. Meus amigos, não mais do que prevê o plano organizativo da Volta a Portugal!
Pelo que se soube, também achei interessante um plano chamado de “Viana à Esplanada”, julgo ainda de pé, que motiva os vianenses a, com os devidos cuidados sanitários, saírem à rua em frequência de espaços comerciais ou espaços públicos de ar livre, motivando um gradual relançar económico e regresso à normalidade. Não mais do que se faria na Volta a Portugal.
Se eu fosse vianense, de Viana do Castelo, estava confundido.
Bem se sabe que o teletrabalho, ou a existência de tele, sem trabalho, tem condicionado ou confundido muita gente. E quando se continua a dizer que vai ficar tudo bem, agora, já sabemos que é mentira. Vai continuar tudo bem para os do costume e para os outros do costume vai piorar cada vez mais.

Mais do que planos de contingência de alteração do percurso da Volta, pessoalmente, o que mais me custa, até com alguma agonia, é ver Viana do Castelo, fora da Volta. Uma Volta a que pertence. Isso, e ser mais uma localidade que terei de riscar do meu mapa turístico interno.
Luís Gonçalves